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    O MÁGICO

    Indicada ao Globo de Ouro, animação recupera personagem mágico de Jacques Tati<br />
    Por Heitor Augusto
    05/01/2011

    Se fosse uma produção clássica da Disney, O Mágico priorizaria a magia e o alumbramento que a animação permite, colocando em segundo plano o que acontece quando as luzes mágicas do lápis de cor se apagam e os personagens têm de encarar o mundo, de fato.

    Mas em O Mágico, bela produção francesa baseada no roteiro original de Jacques Tati, o concreto cobra sua conta sobre o lúdico e, quando o faz, nem os lindos traços da animação e os cenários coloridos de tempos de inocência escondem a melancolia que sucede a tomada de consciência do protagonista: os tempos mudam.

    Justamente as transformações dos anos 50 para os 60 colocam Tatischeff, desenho inspirado nos personagens de Tati no cinema, como um iminente marginal. Ele é um mágico, illusionniste, como diz o título original, em tempos que a inocência começa a se tornar moeda sem valor. Tatischeff passa por várias cidades tentando sobreviver tirando coelho da cartola, fazendo brotar um buquê de flores, descobrindo moedas atrás de orelhas de crianças.

    Já não há espaço para essas ilusões, pois a televisão, com sua ditadura da “verdade”, inicia seu reinado. As crianças, principal público de um mágico, passam a despertar a imaginação por meio de um pequeno tubo em preto e branco, a TV.

    O Mágico é preciso ao transitar na fronteira entre a magia e a melancolia. Cenários coloridos, truques de mágico e a delicadeza da música são instrumentos que dão conta do lúdico, mas não há como negar que o tema do filme, olhado sob a perspectiva de seu protagonista, é triste, um pequeno ensaio sobre o fim de uma era pré-anos 60.

    Esse tratamento híbrido entre o que conta com o como conta coloca O Mágico um passo à frente da média das animações: uma história sobre o desalento contada com lápis de cores banhados de alegria.

    Influência de Jacques Tati

    Por trás do protagonista de O Mágico está um dos maiores humoristas de todos os tempos, Jacques Tatischeff. É em seu principal personagem, Monsieur Hulot, que o Tatischeff da animação é baseado: um senhor bem alto e desengonçado.

    A adaptação que Sylvain Chomet fez em cima do roteiro do próprio Tati mantém a essência dos principais filmes do comediante, como Meu Tio: a ausência de diálogos. Há duas ou três frases pontuais, com muitos resmungos e interjeições. As gags de Tatischeff, assim como a montagem e a ambientação sonora (tão boa que merece um texto à parte), proporcionam completo entendimento das cenas: diálogos seriam, na verdade, um grande desperdício.

    Nos detalhes, O Mágico transforma-se numa animação singular, na qual as palavras e os efeitos dão lugar aos recursos mais simples para se contar uma história no cinema. Palmas para o trabalho comandado por Sylvain Chomet que, no fim das contas, deixa, com seu filme, uma interrogação: qual é o espaço que as mentiras inocentes de um mágico têm em tempos de ditadura da “verdade”?