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    O MENINO DA PORTEIRA

    Por Heitor Augusto
    06/03/2009

    Poucas são as refilmagens que justificam retomar o mesmo tema e, melhor, superam a versão original. Um desses exemplos é O Menino da Porteira, remake do longa produzido em 1976 e baseado na canção sertaneja homônima, cujo intérprete mais ilustre, Sérgio Reis, angariou fãs após gravá-la.

    O sertanejo ocupa um importante espaço na composição da cultura brasileira. Especialmente a figura do caipira, que nos anos 50 recebeu um retrato peculiar de Mazzaropi, cujos filmes formavam filas imensas nas entradas dos cinemas de rua. O universo rural exerce o fascínio do exótico para quem o desconhece e a capacidade de identificação para quem é familiar com as paisagens e costumes.

    O Menino da Porteira trabalha ora em um registro, ora em outro. Quem conhece os pastos "desse Brasilzão", como os tocadores de moda de viola definem nossos 8,5 milhões de km², vai encontrar um retrato justo ao universo das fazendas, boiadas, mandas-chuva, bolos de fubás, extensos campos verdes.

    Aos "estrangeiros", o filme guarda um enredo repleto de subtramas, conflitos, paixões, rancor, opressão e sequências de western à John Ford. O peão Diogo (Daniel) é incumbido de levar uma boiada até a fazenda Ouro Fino, do temido Major Batista (José de Abreu). Os pequenos proprietários que o circundam vêem na chegada do independente peão a chance de vender os bois sem passar pela intermediação do Major. A decisão faz com que boiadeiro e o dono do pedaço batam de frente, levando a desdobramentos que afetam diretamente o tal menino da porteira do título, o Rodrigo (João Pedro Carvalho).

    Ou seja, basicamente o que está dito na canção, escrita por Teddy Vieira. O argumento do filme bebe dela, mas o desdobramento da história vai além. O Major é o exemplo do Despótico, uma transposição à sertaneja de O Príncipe, de Maquiavel, cercando-se de capachos que agem como seu braço rígido. Diogo, o narrador da canção, é o herói do filme, que age na perspectiva individual: pisou no calo dos meus amigos, eu reajo. Uma revolta conservadora e limitada, diga-se de passagem.

    No remake, os coadjuvantes ganham um espaço justo e o diretor Jeremias Moreira, felizmente, não cai na opção barata de explorar o carisma e a imagem do cantor Daniel, interpretando o primeiro protagonista de sua vida. Juliana (Vanessa Giácomo), a enteada do Major que não o respeita, flerta com o peão; João Só (Valter Santos), um capataz com resquícios de humanidade, determina os desdobramentos da trama; o farmacêutico Dr. Almeida (Zedu Neves) é o intelectual, enquanto Eucir de Souza tem a força junto aos sitiantes. Zé Coqueiro (Antonio Edson) e Filoca (Rosi Campos) dão a pitada de humor inocente para relaxar.

    Gostando ou não de Daniel, o cantor - e agora protótipo de ator - passa veracidade na sua interpretação e versatilidade na performance das canções sertanejas, da guarânia Índia à toada Disparada. Méritos também para os cuidados do maestro Nelson Ayres, que capricha na trilha incidental. Outro elemento requintado é a montagem, assinada por Manga Campion, que segue à risca o melhor estilo Grifith (a audácia da simultaneidade de Intolerância e não a caretice de Lírio Partido), dando ação e ritmo ao filme.

    Habilmente, O Menino da Porteira salta da descrição de paisagens (longos planos dos bois e pastagens), vai para o musical (interpretações de músicas de raiz incorporadas suavemente na trama), dialoga com o romance (o mocinho e a mocinha) e desemboca em um faroeste (cenas de bang bang interessantíssimas). Um flerte com diversos gêneros que desenha um peão que fica mais interessante ainda quando se torna um caubói.