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    O MERCADO DE NOTÍCIAS

    Doc. faz revelante análise crítica do jornalismo no país
    Por Roberto Guerra
    05/08/2014

    Este documentário do diretor Jorge Furtado (O Homem que Copiava) usa a peça teatral The Staple of News, do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572- 1637), como base para uma dissecção do jornalismo brasileiro dos dias atuais. Encenada pela primeira vez em 1626, o texto foi, à época, uma crítica bem-humorada a uma atividade recentemente criada, uma novidade em Londres: o jornalismo.

    A peça foi traduzida para o português pela primeira vez e é encenada por atores ao longo do filme. Paralelamente, 13 grandes nomes do jornalismo brasileiro avaliam a prática da profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias, o futuro do jornalismo e alguns casos recentes que envolveram gafes, erros crassos ou omissões da imprensa nacional.

    A inventiva ideia de usar a obra do século 17 como vereda para se discutir a prática do jornalismo atual torna-se óbvia em poucos minutos de filme dada à atualidade impressionante do texto. A peça foi composta apenas três anos depois de o primeiro jornal inglês começar a circular (o semanário A Current of General News), mas as questões assombrosamente continuam as mesmas.

    O cineasta entregou aos jornalistas Bob Fernandes, Jânio de Freitas, Cristiana Lobo, Fernando Rodrigues, Geneton Moraes Neto, Luis Nassif, Mino Carta, entre outros, o texto da peça e posteriormente os indagou sobre a profissão. Os depoimentos, intercalados à encenação por atores, constrói um panorama crítico da atividade de informar nos dias de hoje.

    O documentário discute a partidarização política dos órgãos de imprensa, os interesses comerciais das grandes empresas de comunicação, a mercantilização da notícia, ética profissional e o advento da internet e como esta está estabelecendo uma nova relação entre os geradores de notícias e o público. Mas todo o debate é conduzido por Jorge Furtado num ritmo leve, nada carregado, que se impõe pelo texto cômico e sarcástico da peça inglesa.

    E esta relação bem engendrada entre os depoimentos dos jornalistas e a encenação da peça do dramaturgo inglês é que dá a O Mercado de Notícias uma dinâmica e leveza que o torna palatável para qualquer espectador, sem, no entanto, desfazer-se da seriedade do tema abordado. Com isso, Furtado faz seu filme, essencial pelo assunto tratado, tornar-se acessível àqueles que estão de fora da discussão, mas que são os principais alvos ou vítimas do jornalismo mal feito: o público.

    O cineasta, no entanto, cometeu um deslize ao partidarizar seu filme. O Mercado de Notícias encampa o discurso do governo petista de que são perseguidos por uma imprensa elitista e, paralelamente, dá grande exposição a um episódio que desabona os peessedebistas.

    Posicionamentos políticos de lado, o fato é que ao se concentrar no embate político, Furtado acaba tratando muito en passant o caso da Escola Base, por exemplo, esse sim o mais representativo desacerto da imprensa brasileiro dos últimos anos. Uma escorregada evidente, mas que não subtrai muito desse pertinente, bem dirigido e revelante  documentário.