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    O PASSADO

    Contido, drama faz reflexão realista sobre relacionamentos
    Por Gustavo Assumpção
    06/05/2014

    Quando tentou definir a complexidade de seu novo filme, o diretor iraniano Asghar Farhadi comparou: "A forma geométrica de O Passado é como um castelo de cartas". Ele não poderia estar mais certo: há uma lógica matemática na maneira como as histórias e os dramas de seu novo filme se sobrepõem e se intercalam – exatamente como já acontecia em A Separação, filme que o consagrou e rendeu alguns prêmios expressivos, entre eles, o Oscar de Filme Estrangeiro.

    O Passado acompanha o reencontro entre Marie (Bérénice Bejo) e Ahmad (Ali Mosaffa). Ela, francesa, ele, iraniano, se reúnem em Paris para a assinatura final do processo de divórcio. A Paris retratada aqui, porém, foge do glamour do título de cidade-luz, dos bistrôs caros e chiques e das vitrines recheadas de peças da alta-costura. Aqui quem dá as caras é a Paris trivial do cotidiano da classe média, mais interna do que externa, mais opaca do que iluminada.

    É justamente neste cenário que a cena inicial nos apresenta os personagens. Sob chuva e trânsito intenso, Ahmad e Marie trocam as primeiras palavras, que mais escondem do que revelam seus sentimentos, em um espiral quase sem fim de questões mal resolvidas, de palavras não ditas, de momentos não explicados.

    O divórcio é necessário para Marie se casar com Samir (Tahar Rahim), um homem ainda oficialmente ligado à sua esposa, o qual permanece em coma após uma tentativa frustrada de suicídio. A nova relação cria um conflito intenso com Lucie (Pauline Burlet), filha mais velha de Marie, com quem o diálogo é praticamente inexistente.

    A chegada de Ahmad, porém, traz à superfície o que é preciso ser discutido, descoberto, aquilo que os personagens precisam saber para entender uns aos outros e também para entender suas próprias ações.

    Berenice Bejo, impecável, substituiu Marion Cottilard, primeira aposta do diretor para o papel principal. Certeira, sem deixar de dosar a fragilidade e a complexidade de seus sentimentos, consegue conduzir a trama de maneira convincente, já que o roteiro sintético gira os conflitos em torno, justamente, de sua ambiguidade.

    Há um certo hermetismo na maneira como a história avança, mas esta parece ser justamente a maneira pelas quais Farhadi procurou tratar a joia escondida em O Passado. Por trás de uma trama que nunca apresenta momentos de extremo exagero, está o compromisso de não cair no lugar comum e nas resoluções simples.

    A sucessão de dramas sobrepostos em camadas cada vez mais espessas, difícil de serem separadas, evidencia o talento de Farhadi como um sensível cronista dos relacionamentos familiares, mesmo que por vezes a trama careça de uma conexão maior entre os personagens ou de uma certa objetividade para encerrar os arcos do roteiro - algo mais claro na conclusão da história.

    Mas é inegável afirmar que está aqui uma investigação para pensar. Farhadi já tinha sido muito bem sucedido quando retratou um drama familiar em A Separação. Se, antes, o olhar era sobre o futuro, agora é uma reflexão importante sobre o que ficou para trás ou, mais especificamente, sobre o que é preciso deixar para trás. A cena final, impressionante, parece querer mostrar que nossos atos se tornam sim passado, mas reverberam no nosso presente em uma teia de onde é difícil escapar.