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    O RETRATO DE DORIAN GRAY (2009)

    Criando personagens inexistentes no livro, adaptação se aproxima de jovens<br />
    Por Celso Sabadin
    09/03/2011

    Vem polêmica por aí. Afinal, o romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que vem conquistando corações e mentes desde 1890, ano de sua primeira publicação, já rendeu mais de uma dezena de adaptações para o cinema e para a TV. E esta nova versão tem tudo para ser uma das mais combatidas. Motivo: o filme dirigido por Oliver Parker (o mesmo de O Marido Ideal) não se importa muito em ser fiel ao original, e adapta livremente o antigo texto para as novas plateias ávidas por boas doses de terror e suspense.

    Nesta produção inglesa de 2009 que chega agora aos cinemas do Brasil, o personagem título (vivido por Ben Barnes, o Príncipe Caspian da saga As Crônicas de Nárnia) é um belo, ingênuo e simplório rapaz que vem do interior da Inglaterra para assumir seu posto de herdeiro solitário numa riquíssima mansão londrina. Ao chegar à capital, Dorian logo percebe que, junto com a mansão e a herança, vem também um apêndice atrativo, mas nem sempre fácil de lidar: a alta sociedade local.

    Com todas as suas pompas, circunstâncias, melindres, convenções, ironias e jogos de aparência que o ferino Oscar Wilde adorava ridicularizar. Dorian se vê então dividido – e atraído – por dois interessantes representantes desta sociedade: o artista plástico Basil (Ben Chaplin, sem parentesco com Charles) e o cínico Lord Wotton (Colin Firth, de O Discurso do Rei). Enquanto Basil se encanta com a beleza de Dorian e se propõe a pintar o famoso retrato que desencadeará toda a história, Wotton preocupa-se somente em destilar sobre o rapaz toda a sua acidez crítica e sarcástica contra o mundo.

    A partir deste triângulo, o roteirista estreante Tob Finley desenvolve praticamente um novo Dorian Gray que, certamente em busca de um público jovem, dialoga mais de perto com filmes de vampiros que propriamente com a sutileza da obra de Wilde. Com direito a sons fantasmagóricos, efeitos especiais e até uma transformação monstruosa que nada fica a dever ao gênero horror. Isso sem falar numa refinadíssima direção de arte iluminada pela requintada fotografia de Roger Pratt, fotógrafo de dois episódios de Harry Potter e do irretocável Chocolate.

    Novos personagens – inexistentes no livro – são criados para dar maior dramaticidade ao filme. Entre eles, a bela e prematura esposa de Dorian e a enigmática filha de Lord Wotton, Emily (Rebecca Hall, de Vicky Cristina Barcelona, ótima).

    Os mais puristas vão pular da cadeira. Não de susto, mas de ódio. Mas a boa notícia é que boa parte da ironia de Wilde permanece no filme, garantido deliciosos momentos de pura sagacidade verbal. Como, por exemplo, “Não se deve dar a uma mulher nada que ela não possa usar à noite”. Ou “Os homens querem ser felizes, mas a sociedade exige que eles sejam bons”, “Nenhum homem civilizado se arrepende do prazer” e “As pessoas morrem a toda hora por causa do bom senso”. Na boca do sempre ótimo Colin Firth, estas preciosidades tipicamente britânicas ganham tempero especial.

    Assim, o artifício de repaginar O Retrato de Dorian Gray na tentativa de apresentá-lo a um público diferente não deve ser visto necessariamente com maus olhos. Nem com o coração fechado. Se apenas um punhado desta nova plateia se interessar o suficiente pela história a ponto de buscar e descobrir os textos originais, a empreitada já terá valido. Mesmo porque o tema da beleza e da juventude a qualquer custo, e a crítica à ditadura da aparência parecem estar mais em pauta do que nunca, mesmo depois de mais de um século da morte do famoso escritor irlandês.