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    O SAMBA QUE MORA EM MIM

    Em vez de olhar o Carnaval, filme se aproxima das histórias de personagens típicos da Sapucaí<br />
    Por Heitor Augusto
    02/02/2011

    No documentário O Samba que Mora em Mim, o ritmo musical consagrado pelo Rio de Janeiro é um pretexto para se contar histórias de pessoas visíveis somente no sábado de Carnaval. Quem é essa gente por detrás das fantasias, batuques e repiques? Este é o assunto ao qual o documentário se dedica.

    Esperar por um filme sobre samba ou carnaval é manter uma expectativa incoerente à proposta da estreante Georgia Guerra-Peixe: como ela esclarece logo no início, histórias sobre seres humanos comuns ganharão a tela nos próximos minutos. Os super-heróis do samba, os mestres e bambas ficam para uma outra hora – e outro filme, talvez Cartola – Música Para os Olhos ou Bezerra da Silva – Onde A Coruja Dorme.

    A câmera de O Samba que Mora em Mim sobe o morro à cata de personagens para compartilhar suas histórias conosco. Somos convidados a passear por vielas, acompanhar o cotidiano do Morro da Mangueira e, no meio do caminho, entrar na casa da Vó Lucíola, caminhar ao lado de Cosminho, dividir as histórias carnavalescas do Mestre Taranta e por aí vai.

    Como a pesquisa de personagens feita por Gisele Camara é carinhosa, chegamos a relatos com a necessária carga dramática para sustentar a proposta do filme. É gostoso dividir as vidas dessas pessoas documentadas por O Samba que Mora em Mim.

    Uma das curiosidades descobertas pelo filme é a presença maciça do funk, mesmo num morro como o da Mangueira, conhecido pelo requebrado do samba. Funk e samba convivem paralelamente, pois até mesmo quem trabalha nos barracões confeccionando fantasias não deixa de ir ao baile funk periodicamente. “O samba acaba com o Carnaval, mas tem baile toda sexta-feira”, diz uma personagem.

    Nesse clima de comunidade que o filme propõe há também um aspecto dúbio: a violência. Guerra-Peixe optou por praticamente excluir o tema de seu filme, apresentando um olhar positivo da favela com personagens que reiteram o prazer de estar em Mangueira.

    Opção que respeito, apesar de discordar parcialmente, pois, assim como o samba eternizou o morro como um motivo romântico – a canção Exaltação à Mangueira (1956), de Enéas Brites da Silva e Aloísio Augusto da Costa, ilustra isso –, a favela é também o lugar da carência social – como lembra a letra de Tanta Tristeza (1967), de Elton Medeiros e Kleber Santos.

    Talvez por que a televisão costuma associar favela à criminalidade que O Samba que Mora em Mim deixar em segundo plano. Uma escolha que em alguns momentos coloca o filme num tom de “precisamos falar bem do morro”.

    Porém, o documentário da estreante Georgia Guerra-Peixe compartilha conosco boas histórias sem utilizar o clichê das entrevistas talking head ou fazer do filme uma plataforma apenas para um longa musical.