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    O SEGREDO DO GRÃO

    Por Da Redação
    11/07/2008

    Abdellatif Kechiche realizou, em 2003, o ótimo A Esquiva, que por aqui só passou na TV por assinatura. Enfocando a vida de suburbanos parisienses, geralmente imigrantes tunisianos ou argelinos, Kechiche conseguiu retratar com perfeição as angústias amorosas de adolescentes, utilizando diálogos rápidos, cheios de gírias e muitas vezes gritados.

    O diretor volta agora com O Segredo do Grão. Desta vez, o enfoque está mais no início da terceira idade, pois acompanhamos um senhor que se divorcia e monta, com a ajuda de toda a família, um restaurante num barco. Se ele tem ajuda, tem também muita gente "jogando olho gordo", dizendo que não vai funcionar, reclamando dos preços, o que obrigaria a concorrência a baratear seus produtos para não ser engolido; em suma, uma dezena de problemas se manifestam paralelamente ao esforço da inauguração.

    Em Portugal, o filme se chamou O Segredo de um Cuscuz, o que talvez seja bem apropriado, pois se concentra ainda mais no drama que envolve os personagens no terceiro terço do filme, o mais importante e o mais complicado: todos aguardam a chegada do prato típico, tido como o principal do restaurante.

    Infelizmente, Kechiche errou a mão desta vez. Não conseguiu imprimir um tom certeiro nas discussões familiares - desta vez elas são somente gritadas, sem nunca passar por uma irritação que nos pareça legítima. No terceiro terço, ainda existe a seqüência constrangedora do protagonista correndo atrás dos meninos que roubaram sua motocicleta. Em montagem paralela, acompanhamos o senhor desesperado e esbaforido, enquanto sua enteada improvisa uma longa apresentação. O mais estranho é que os convidados, famintos por causa do atraso de mais de duas horas do prato principal, parecem esquecer das obrigações de seus metabolismos para se entregar à apresentação improvisada, enquanto a sorte de nosso protagonista só conspira contra ele.

    Existe um grande lapso entre a idéia de retratar a vida de pessoas simples com diálogos e câmera na mão e a necessidade de vender o tempo todo uma idéia de caos familiar, de desesperança das boas intenções. Se Kechiche foi muito feliz em seus filmes anteriores (antes de A Esquiva, ele havia realizado La Faute à Voltaire), em O Segredo do Grão naufraga tentando emular as características que ele mesmo ajudou a formatar (câmera na mão, discussões aos berros, vida simples de imigrantes), mas de forma preguiçosa. Muito mais consciente do sucesso de seu estilo do que entregue aos anseios de seus sofridos personagens.