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    O SOLISTA

    Da mesma forma que o personagem tira beleza de seu miserável violino, o diretor é capaz de encontrá-la numa história triste como esta<br />
    Por Angélica Bito
    05/11/2009

    Joe Wright estreou na direção de um longa-metragem em 2005 e, com Orgulho e Preconceito, já mostrou que pretendia fazer o que muitos cineastas não conseguem: trazer frescor ao cinema norte-americano. Depois de dois filmes de época (Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação), Wright volta-se a uma história contemporânea real e segue mostrando representar um suspiro de alívio em meio à mesmice.

    Uma série de reportagens escrita pelo colunista do jornal Los Angeles Times Steve Lopez serve como base para o roteiro de O Solista, escrito por Susannah Grant (indicada ao Oscar em 2001 pelo roteiro de Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento). Robert Downey Jr. atua como Lopez, que descobre o sem-teto Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), que, por conta da esquizofrenia não-medicada, saiu de casa e abandonou o curso de música na conceituada escola de artes Julliard, preferindo viver nas ruas de Los Angeles tocando seu violino de duas cordas.

    As reportagens de Lopez despertam a atenção da comunidade numa época em que o jornalismo impresso começa a entrar em crise com a crescente popularização da internet. Mas esta não é a principal questão de O Solista, mas sim a forma degradante e miserável que sem-tetos vivem nas ruas de uma metrópole na proporção de Los Angeles, mas que poderia ser São Paulo. Uma história como a de Ayers poderia surgir sob um viaduto ou numa esquina próxima a você.

    Da mesma forma que Ayers tira beleza de seu miserável violino, Wright é capaz de encontrá-la numa história triste como esta. Fugindo da armadilha de abusar do tom piegas ao explorar esta história, armadilha fácil por aqui, o filme aborda essa amizade improvável desenvolvida entre os dois protagonistas, ao mesmo tempo em que desenvolve um drama conduzido pelo problema mental de Ayers que, como tantos outros sem-teto reais que fazem figuração no filme, é incapacitado de seguir com seus planos de ser músico profissional, ou mesmo viver em sociedade, por conta da esquizofrenia não-medicada, comprometendo qualquer tipo de relação, até com seus familiares. Mas ainda é capaz de se relacionar com a música. Aliás, uma das mais belas cenas de O Solista está no momento quando Ayers assiste ao ensaio de uma orquestra. O coração acelera e, por meio de luzes coloridas, Wright traduz em imagens o que o protagonista poderia estar visualizando com os olhos fechados e o estímulo da poderosa música que ouve.

    Mesmo abordando a beleza da arte e a forma como ela tem impacto na vida dos protagonistas, O Solista também não tem pudores para mostrar a crueldade da vida miserável nas ruas de Los Angeles, mais precisamente no Skid Row, que, além de nomear banda de hard rock que costumava ser liderada por Sebastian Bach e fez sucesso no início dos anos 90, também é o bairro onde os sem-teto vivem na cidade. As filmagens, aliás, realmente ocorreram por lá.

    Para conseguir realizar um filme emocionante e consistente como O Solista, Wright conta com as atuações magistrais de Downey Jr. e Foxx. Aliás, se ele ganhou o Oscar pela atuação em Ray (2004), nada mais justo e coerente do que levar a estatueta para casa novamente por este trabalho, que, no mínimo, receberá uma indicação aos prêmios da Academia.