Poster do Filme O som ao redor

O SOM AO REDOR

(O Som ao Redor)

2012 , 131 MIN.

16 anos

Gênero: Drama

Estréia: 04/01/2013

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  • Ficha técnica

    Direção

    • Kleber Mendonça Filho

    Equipe técnica

    Roteiro: Kleber Mendonça Filho

    Produção: Emilie Lesclaux

    Fotografia: Pedro Sotero

    Trilha Sonora: DJ Dolores

    Estúdio: Cinemascópio, Hubert Bals Fund

    Montador: João Maria, Kleber Mendonça Filho

    Distribuidora: Vitrine Filmes

    Elenco

    Clébia Souza, Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Irma Brown, Lula Terra, Maeve Jinkings, Maria Luiza Tavares, Sebastião Formiga, W. J. Solha, Waldemar José Solha, Yuri Holanda

  • Crítica

    02/01/2013 19h54

    Depois de amealhar prêmios em importantes festivais de cinema mundo a fora e ainda entrar para a lista dos melhores filmes de 2012 do The New York Times, O Som ao Redor chega aos cinemas brasileiros respaldado pelo reconhecimento inequívoco: trata-se de uma grande e pungente obra de cinema. E nacional, o que é melhor. Não causa surpresa o fato deste longa, dirigido e roteirizado por Kleber Mendonça Filho (autor do premiado curta Vinil Verde, de 2004), vir de Pernambuco. O Estado nordestino faz hoje o melhor e mais inventivo cinema do país.

    O Som ao Redor é mais uma produção a legitimar esse momento inspirado do cinema pernambucano. Leva às telas uma Recife urbana que parece padecer de enfermidade nascida do choque entre o velho e o novo. Um local cosmopolita, a olhos vistos desenvolvido, mas que esconde em suas vísceras o miasma oriundo dos piores vícios humanos. Apontando sua câmera para o mundano – que aqui é colocado em lugar de destaque -, o cineasta cria uma espécie de thriller de muitas camadas no qual a tensão e angústia são crescentes e desconcertantes para o espectador.

    O longa retrata o cotidiano dos moradores de uma rua de classe média da zona sul do Recife. Daqueles lugares que passamos de carro e percebemos de relance edifícios misturados a algumas poucas casas resistentes e empregados levando os totós das madames pelo passeio arborizado. Típico local de apartamentos-reinados cheio de “tronos” e gente “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”, como dizia Raul Seixas. É neste universo corrente e, ao mesmo tempo, ignorado - lugar cuja arquitetura resume-se a barrar o elemento externo e proteger quem está dentro - que Mendonça Filho nos propõe explorar em O Som ao Redor.

    Entrar no dia-a-dia dessas pessoas, invadir seus espaços, revela-se uma provação. Começamos a perceber, aos poucos, algo de muito errado e doentio num corpo social que luta por disfarçar os muitos sintomas de sua moléstia. Há nesta observação – que o jogo de câmera, edição de som e fotografia ajudam a galvanizar - um clima de suspense difuso, que está presente nos atos mais cotidianos. O diagnóstico cabe ao público, que não demora a perceber o quão insalubre e instável é este microcosmo urbano que, a despeito da aparente modernidade, é permeado por aspectos antiquados.

    Parte dos imóveis da rua são ou foram de propriedade de um velho rico, Francisco (W. J. Solha, de Era Uma Vez Eu, Verônica), que tenta manter o controle do local como uma espécie de senhor de engenho autoritário e controlador. Orbitando a seu redor estão seus familiares, como os netos João (Gustavo Jahn), corretor de imóveis entediado com seu trabalho - que experimenta um relação de amor frágil pela jovem Sofia (Irma Brown) - e o perdido Dinho (Yuri Holanda), jovem bem nascido que flerta com a criminalidade sem motivo aparente. Há também na rua uma mãe de família Bia (Maeve Jinkings), que fuma maconha às escondidas dos filhos e cujo maior inimigo é o cachorro do prédio vizinho.

    Em dado momento chega por lá um grupo de seguranças de rua, comandado por Clodoaldo (Irandhir Santos, de Febre do Rato), que oferece proteção aos moradores ao custo de uma mensalidade de R$ 20. Ele logo percebe que a autorização para trabalhar no local depende menos da decisão pessoal de cada morador e mais do aval do velho Francisco, que vê no grupo uma maneira de exercer seu poder também por meio da força. A analogia com o senhor de engenho se faz clara outra vez por meio da milícia do “capataz” Clodoaldo.

    A chegada deste personagem e seus capangas traz mudanças à trama, mas não uma virada de roteiro tradicional. O filme mantém-se sustentado em pequenos acontecimentos mundanos, que se revelam ainda mais inquietantes do que aqueles vistos numa trama comum movida à ação e reação. A vida desses personagens, sua atitudes e também apatias e tédios diante das próprias existências são os responsáveis pela dinâmica asfixiante deste filme, por que não dizer, de horror. E o assustador e temerário aqui está na familiaridade que O Som ao Redor desperta na gente.




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