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    O SONHO DE WADJDA

    Primeiro longa-metragem produzido totalmente na Arábia Saudita destaca embate entre gêneros e culturas <br /><br />
    Por Cristina Tavelin
    01/05/2013

    Wadjda tem um sonho relativamente simples: ter uma bicicleta. Entretanto, o desejo mais modesto pode exigir uma empreitada complexa dependendo do ambiente cultural onde se vive. A diretora de O Sonho de Wadjda sabe bem disso.

    Haifaa Al Mansour levou a cabo o primeiro longa-metragem produzido inteiramente dentro da Arábia Saudita. E esse feito vindo da primeira mulher a comandar um filme foi quase uma afronta na região onde o gênero mal pode mostrar o rosto.

    Wadjda usa All Star, ouve músicas consideradas demoníacas e não compreende o motivo de tantas limitações impostas a sua volta. Mas não se deixa tomar pelo medo diante das situações pelas quais passa. Assim, o filme foge do exagero dramático e segue o caminho da leveza, da simplicidade. Por outro lado, não gera impacto como ficção, poderia ter ganhado até mais força na forma de documentário.

    A trama se passa basicamente em sua casa, na escola e no bairro onde vive. Ao traçar este caminho cotidiano, exibe a cultura da região, marcas de influências ocidentais e o conflito de identidade gerado pelo choque com a tradição. Para comprar sua bicicleta, a personagem entra em um concurso para recitar o alcorão, mesmo a contragosto. Necessita deste recurso para conseguir dinheiro e alcançar o objetivo.

    A atriz mirim Waad Mohammed se sai bem ao desenvolver com naturalidade o papel da pré-adolescente, ainda mais se levarmos em conta que a câmera está 100% do tempo acompanhando seus passos. Já os coadjuvantes, todos sauditas, têm desempenhos desnivelados. Reem Abdullah, famosa atriz de TV, consegue transmitir veracidade como mãe da protagonista. O indeciso pai interpretado por Sultan Al Assaf soa um tanto caricato.

    O modo de ser e pensar de Wadjda logo encontra conflito ao cruzar os passos de Hussa, diretora conservadora e hipócrita à frente da instituição onde estuda. Apesar de previsível, o roteiro tem um ritmo bom e conta o necessário para ser compreendido. Ao retratar os anseios de uma menina de 12 anos, a diretora Haifaa também revela os seus. Não à toa, a libertação é o foco deste longa.

    O problema do estilo cinematográfico mais politizado está na possível falta de consistência como obra de arte. O Sonho de Wadjda acaba tendo papel mais informativo, principalmente diante de olhos ocidentais. Mas, neste caso específico, não teria como ser diferente. A equipe enfrentou problemas durante as filmagens, com protestos e reclamações pelo fato de homens e mulheres trabalharem juntos na mesma produção. O conflito ficou intrínseco à película.

    Parece haver uma necessidade de a Arábia Saudita mostrar seu rosto coberto até hoje, imerso cada vez mais pelo american way of life. Os detalhes da cultura acabam chamando mais a atenção do que a trama em si. E, neste momento, cabe aos olhos do mundo acompanhar seus primeiros passos livres na sétima arte antes de tecer dezenas de julgamentos.