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    O TEMPO E O VENTO

    Épico corre ligeiro e tem problema de contextualização
    Por Roberto Guerra
    28/09/2013

    A saga literária de Érico Veríssimo sobre as muitas gerações de duas famílias marcadas por romances, tragédias e enfrentamentos nos campos de batalha do Rio Grande do Sul não é uma obra fácil de adaptar para o cinema dado ao tempo que abarca. Condensar 150 anos de história em duas horas de filme e não parecer superficial ou pressuroso requer a habilidade de jogar com o tempo, perícia que o diretor Jayme Monjardim não demonstrou.

    O filme corre ligeiro, principalmente em sua primeira metade. Fica-se à distância observando um suceder de tramas sem muita contextualização que mais parece o trailer da minissérie que será exibida pela Globo daqui a alguns meses - o longa vai fazer o caminho inverso de O Auto da Compadecida, que foi originalmente produzido como minissérie e depois virou filme. 

    Só que em O Tempo e o Vento, a despeito da reconstituição de época impecável, da bela fotografia do veterano Affonso Beato e dos esforços para tentar alcançar uma dimensão épica condizente com o enredo, tudo soa muito artificial e forçoso a quem assiste.

    E na cartilha cinematográfica de Monjardim, se não vai por bem vai por mal. Como é praxe, o diretor abusa da trilha sonora edificante tentando arrancar impressões e sentimentos do espectador a fórceps, já que as emoções não surgem naturalmente da dramatização levada a toque de caixa.

    A narrativa é conduzida pela personagem Bibiana (Fernanda Montenegro, pra variar, ótima) já em seus últimos momentos de vida. Sitiada num casarão sob o cerco dos inimigos, conta a história da formação da família Terra-Cambará e sua relação de ódio com os Amaral.

    O Tempo e o Vento só deixa de ser trailer e vira filme quando começa a narrar a chegada do capitão Rodrigo Cambará a Santa Fé, onde conhece Bibiana e se apaixona. Thiago Lacerda está muito bem no papel do valente e brejeiro capitão e é provável que brilhasse se o filme permitisse.

    Quase se esquece de ter visto momentos antes a sofrível interpretação de Cléo Pires como Ana Terra, avó de Bibiana. Lacerda é um canastrão, tipo de ator que se estiver na mão de um bom diretor, o que não é o caso, pode surpreender. Cléo é uma má atriz mesmo – ela consegue destoar totalmente do padrão de excelência do resto do elenco.

    Mesmo como seus inúmeros problemas, O Tempo e o Vento não é um filme ruim. Mas não consegue tampouco cruzar a fronteira do mediano, apesar de estar próxima dela. Tanto capricho, até excessivo, com luz, paisagens e pores do sol lindos e redundantes chocam-se com deficiências evidentes.

    É até frustrante ver a cena final, muito bem feita, de Bibiana descendo as escadas do casarão e rejuvenescendo a cada lance até encontrar seu grande amor Rodrigo e, finalmente, poder viver em paz a seu lado na eternidade.

    Neste momento, se o arco dramático do filme tivesse sido bem construído, era para estarmos soluçando, contendo o choro. Mas as lágrimas não vêm e a emoção reluta a surgir pelos deslizes que foram vistos antes.

    Se Monjardim tivesse se concentrado desde o início na história de amor de Bibiana e Rodrigo e deixado todo o resto em segundo plano, como fundamento para a trama romântica, talvez tivéssemos um grande filme. Não é o caso. O cinema brasileiro ainda peleja por falta de objetividade narrativa.