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    O TEOREMA ZERO

    Filme aborda bem questões existências, mas final é frustrante
    Por Daniel Reininger
    09/07/2014

    Teorema Zero, novo filme do ex-Monty Python Terry Gilliam, tem a marca característica do diretor e aborda questões existências que ele tanto gosta. Entretanto, falta o brilhantismo de outras de suas obras distopicas, como o clássico Brazil. Isso não significa que o filme seja ruim, pelo contrário, é bastante interessante e traz discussões relevantes ao cinema, como o exagero da presença da tecnologia na vida humana, que parece ter cada vez menos sentido de existir. O melhor: essas questões são abordadas sem deixar de divertir o espectador.

    Ambientado em um sombrio cenário cyberpunk controlado por uma figura conhecida como Gerente (Matt Damon), Qohen Leth (Christoph Waltz) é um homem obcecado pelo telefonema que vai explicar o sentido da vida. Essa obsessão faz com que seja incumbido de provar o complexo Teorema Zero, o qual pretende determinar que não existe nada além da matéria visível do universo e encerraria a discussão sobre a existência de Deus e do propósito da vida humana.

    Gilliam sempre faz um tipo muito específico de filme. Quando eles funcionam são uma mistura de ideias distorcidas e rebeldes, como acontece em Os 12 Macacos. Recentemente, porém, seu trabalho tem sido decepcionante, muito mais focado no estilo do que no conteúdo. Teorema Zero, por sorte, é um dos que funcionam, apesar de ser um apunhado de conceitos presentes em outras de suas obras.

    Em sua visão distópica do futuro a tecnologia substituiu as relações interpessoais, tanto que na cena de uma festa todos usam fones de ouvido ligados a aparelhos eletronicos. Esse isolamento permeia todas as áreas da vida humana, até mesmo nas relações sexuais, nas quais os parceiros vestem roupas que se conectam à internet e criam um mundo virtual. É como se a humanidade tivesse se rendido à Matrix por vontade própria.

    Isso é retratato pelo fato de Qohen ter perdido o senso de identidade e, por isso, apenas falar sobre si mesmo na terceira pessoa do plural. Em meio a questões existenciais profundas, o humor tipicamente britânico (apesar do diretor ser norte-americano) está sempre presente e, mesmo nas opressivas ruas da cidade tomada por telas e neon, é possível rir com anúncios como o da Igreja de Batman, o Redentor.

    Christoph Waltz mostra mais uma vez que é um dos melhores atores da atualidade ao dar vida de forma comovente ao perturbado Qohen, homem para o qual a felicidade é coisa do passado. Destaque também para Ben Whishaw, Peter Stormare e Sanjeef Bhaskar em ótimas partipações especiais como equipe médica responsável por analisar o protagonista, numa cena que só poderia existir num filme de Gilliam.

    Apesar disso, o longa se perde no terceiro ato e personagens com os quais passamos a nos importar saem da trama rapidamente sem muita explicação, enquanto perguntas levantadas ao longo do filme são esquecidas sem conclusão satisfatória. Não que alguém vá assistir a um filme do cineasta esperando uma narrativa concisa com começo, meio e fim, mas o final chega de maneria tão inesperada e frustrante que diminui o impacto de tudo criado até alí. Ainda assim, é bom ver o diretor de volta à sua boa forma, mesmo que ainda esteja longe de seu auge.