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    O TIGRE E O DRAGÃO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Deixe do lado de fora da sala de projeção tudo o que você sabe e se acostumou a ver sobre a maneira ocidental de se fazer cinema. Esta é uma condição mais do que necessária para quem quiser assistir (e apreciar) ao filme O Tigre o Dragão, um dos maiores fenômenos do cinema chinês de todos os tempos. Quem insistir em ver o filme com olhos ocidentais não vai apreciar toda a beleza do roteiro e da produção.

    Ambientada na China antiga, a história fala de Li Mu Bai (Chow Yun-Fat, de Ana e o Rei), um guerreiro cansado de matanças, de guerras e de sangue. À beira da aposentadoria, ele sabiamente deixa sua valiosa e centenária espada sob a guarda de um velho amigo. Na mesma noite, porém, a espada é roubada, o que inicia uma sucessão de conflitos e desperta antigas paixões sufocadas.

    Este simples parágrafo que tenta resumir uma sinopse é muito pouco – quase nada – para explicar o filme. O Tigre e o Dragão chega às nossas telas carregado de uma tradição oriental de se fazer cinema que soa ao mesmo tempo estranha e fascinante aos nossos olhos e ouvidos. Os diálogos de amor melodramáticos e as coreografias mágicas que fazem os guerreiros levantar vôos impossíveis se chocam com nossa percepção americanizada e viciada da arte do cinema.

    Numa sessão realizada no Hotel Maksoud Plaza, não foram poucas as pessoas que caíram na gargalhada e ridicularizaram os malabarismos mágicos dos personagens do filme. Coitados... Viciados em Van Damme, eles nunca ouviram falar em licença poética, em figura de linguagem, nem em sonho. Seguidores de Steven Segall, eles nunca sequer tentaram compreender a maneira simbólica e mística que os orientais têm de ver a vida, com seus olhos diminutos e espíritos gigantescos.

    O Tigre e o Dragão mostra como nossos arredondados olhos ocidentais na realidade enxergam pouco. O filme dá margem a uma série de leituras e subleituras. Engrandece a liberdade de viver, valoriza a honra, a lealdade e a dignidade, ao mesmo tempo em que conta duas belas histórias de amor que se cruzam e – sim, por que não – dá um show de artes marciais nunca visto nas telas. Pelo menos, nas ocidentais.

    Mercadologicamente, o filme já é um fenômeno. Bateu nos EUA a bilheteria do então campeão A Vida é Bela e se transformou no maior sucesso legendado do cinema americano em todos os tempos. Tudo isso antes de obter dez incríveis indicações para o Oscar, perdendo apenas para as 12 de Gladiador.

    O diretor Ang Lee, que já havia demonstrado um talento sem tamanho em seus trabalhos anteriores (Razão e Sensibilidade, Comer, Beber e Viver, Banquete de Casamento, Tempestade de Gelo, todos direcionados ao mercado ocidental) realiza com este seu novo filme uma empolgante viagem de volta às suas origens chinesas.

    Com exceção da canção tema (que felizmente só se ouve nos créditos finais), O Tigre e o Dragão não faz concessões ao público ocidental. Para o bem e para o mal ele é essencialmente chinês. Quem quiser assistir com emoção e espírito aberto, só tem a ganhar. Quem quiser gargalhar, deve procurar na locadora toda a obra de Jackie Chan.

    13 de fevereiro de 2001
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br