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    O ÚLTIMO ELVIS

    Drama argentino mergulha espectador na angústia de homem que perdeu a identidade para seu ídolo
    Por Roberto Guerra
    24/03/2013

    Sempre tive certo fascínio pelo universo dos cantores e bandas covers, estes especializados em imitar, muitas vezes com perfeição insuspeita, grandes ídolos da música. Já vi alguns documentários e reportagens sobre o tema, mas não lembro de ter visto uma ficção cujo personagem central fosse alguém nascido com o talento de ser outro, mesmo que por breves momentos sobre um palco.

    Carlos Gutiérrez, protagonista do longa argentino O Último Elvis, é um cover. De quem é dispensável dizer. O conhecemos caracterizado como Rei do Rock tocando numa festa de casamento. Como de hábito nestes eventos, ninguém dá muita atenção à sua performance. Indiferente à indiferença, ele capricha, dá tudo de si. Ao final, recebe uma gorjeta do pai da noiva, que repassa à banda. A cena diz muito sobre este personagem que vamos tendo o prazer de conhecer – e a tristeza de compartilhar de sua angústia - ao longo do filme.

    Gutiérrez tem 41 anos, trabalha na linha de montagem de uma fábrica de lavadoras de roupa, é separado da mulher e tem uma filha pré-adolescente de quem não é próximo. Completa o orçamento trabalhando para uma empresa especializada em covers de artistas renomados. É assim que consegue fazer apresentações travestido de Elvis e faturar algum. Vivência medíocre para alguém que divide sua personalidade com uma lenda da música.

    O filme do cineasta Armando Bo – também responsável pelo roteiro ao lado de Nicolás Giacobone - desenvolve sem pressa este personagem cativante, complexo psicologicamente e triste. Carlos não teve êxito em fortalecer sua identidade. Sua vida é um grande fracasso e sua personalidade se mistura a do ídolo. Mora numa quitinete decadente, trabalha em algo que odeia para sobreviver e acredita não receber a consideração merecida por ser o que é, o Elvis vivo.

    Ele é chamado de Elvis pelos amigos, dá autógrafos como se fosse o astro. Quase não se reconhece quando o chamam por seu verdadeiro nome. A vida cotidiana, infeliz e ordinária fez Carlos diminuir de tamanho e a personalidade do ídolo crescer dentro dele. Não consegue mais lidar com o peso de viver essas “duas vidas” tão díspares.

    Uma cena recorrente no filme marca essa necessidade premente de fuga. Dirigindo seu velho carro a caminho do trabalho, passa em frente ao aeroporto. Ali está a porta de saída. Ele tem um plano que pretende por em prática às vésperas de completar 42 anos. O show de sua vida seguido da guinada derradeira. Pouco antes de por suas ideias em prática, um acontecimento inesperado atrasa a empreitada. Ele precisa ser Carlos por mais alguns dias, precisa cuidar de sua filha.

    É elogiável neste filme o trabalho de Armando Bo na construção desse personagem, muito bem interpretado, sem excessos de caracterização, por John McInerny. É evidente para o público a certa altura que Carlos tem problemas, que sua idolatria pelo ídolo ultrapassou os limites do racional. Mas o filme não o julga, não o condena, apenas nos faz compartilhar de seu triste drama.