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    O VENDEDOR DE PASSADOS

    Filme questiona crescente insatisfação pessoal na sociedade
    Por Iara Vasconcelos
    21/05/2015

    O cinema nacional tem, aos poucos, passado por mudanças em sua estrutura. Ainda que comédias pastelão e filmes com temática policial dominem a preferência do público, um novo gênero tem ganhado força na última década: O suspense.

    Depois do excelente O Lobo Atrás Da Porta, de Fernando Coimbra, e do recente Isolados, que bebe da fonte de grandes nomes como Stanley Kubrick e Lars von Trier, O Vendedor De Passados, dirigido por Lula Buarque De Hollanda, traz Lázaro Ramos como um homem que recria o passado de outras pessoas que desejam recomeçar a vida do zero. E o longa surpreende.

    Baseado no livro homônimo do angolano José Eduardo Agualusa, a adaptação conta com diversos elementos diferentes da história original, a fim de adaptar a trama à realidade brasileira. Por exemplo, o personagem central era albino. Apesar das mudanças, o tom político permanece o mesmo e Hollanda toca na ferida aberta das ditaduras militares nos países latino-americanos. Em uma das cenas, Vicente (Ramos) até utiliza imagens da época para recriar a história de um cliente.

    O mistério de O Vendedor De Passados se inicia quando a protagonista Clara (Aline Moraes), cujo nome real nunca é revelado, procura os serviços de Vicente. Ela dá carta branca para o rapaz criar sua nova "biografia" da forma que bem entender, com uma única exigência: a nova persona precisa ter cometido um crime. O rapaz fica intrigado pela desconhecida e, como esperado, desenvolve uma paixão por ela.

    Ao longo da narrativa, o enigma em volta da moça vai perdendo força e é substituído por dramas pessoais de Vicente, que sofre de crises existenciais, não só pela natureza de seu trabalho, mas também por ele mesmo viver um passado desconhecido. Adotado ainda bebê, ele carrega em si a vontade de explorar sua infância e a possível vida com seus país verdadeiros.

    Isso aproxima a trama da realidade e nos ajuda a entender melhor os motivos pelos quais ele escolheu essa profissão. É evidente que o personagem precisa preencher uma etapa de sua vida que parece estar em falta e, assim, reencontrar seu próprio eu. Essa mudança no foco da narrativa faz sentido e é gradual.

    Sem surpresa, o filme é pautado por muitas reviravoltas, fato que pode desagradar aqueles espectadores aversos a histórias com tons mirabolantes, até fantasiosos. Entretanto, o roteiro consegue segurar bem o suspense e prender o público, dentro do possível, até o final.

    O Vendedor De Passados traz questionamentos bastante contemporâneos. A crescente insatisfação pessoal e a vontade de ser outra pessoa, mesmo que de mentira, são combustíveis que alimentam uma sociedade insegura e que vive de aparências. Se no filme Vicente leva cerca de dois meses para recriar a história de alguém, na vida real basta um clique no Instagram para alterar a realidade. Você já deve ter feito isso e, provavelmente, nem mesmo reparou.