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    O VOO

    Denzel Washington faz atuação memorável em drama moralista sobre vício em drogas<br />
    Por Daniel Reininger
    04/02/2013

    Logo na primeira cena de O Voo, Whip Whitaker (Denzel Washington) acorda de ressaca ao lado de uma bela mulher, pega uma cerveja e cheira uma carreira de cocaína. Em seguida, vai para o trabalho -ele é piloto comercial e deve voltar à Atlanta. Após intensa turbulência, aproveita os céus claros para beber mais três garrafinhas de vodca misturada com suco de laranja, ao mesmo tempo em que fala algumas palavras reconfortantes aos 102 passageiros a bordo.

    Tudo tranquilo, com direito a tempo para uma soneca, até que o avião apresenta problemas hidráulicos e começa cair. A cena a seguir é espetacular, dirigida com precisão por Robert Zemeckis (Naufrágo). O piloto, acelerado pelas drogas, faz uma manobra ousada para salvar vidas, chegando a deixar o avião de ponta cabeça. Depois de muita luta, a aeronave pousa em relativa segurança em um campo há alguns quilômetros do aeroporto. Apenas 6 morrem e assim nasce um herói. Pelo menos até sair o exame toxicológico da tripulação.

    A partir daí começa um drama moralista sobre alcoolismo, abuso de drogas e mentiras. Denzel interpreta de forma inspirada um homem atormentado, com relações cortadas com sua ex-mulher e filho, que entra em depressão depois de perder a namorada no acidente. Ele decide, então, parar de beber, mas tudo desmorona quando descobre ser alvo de uma investigação que pode o colocá-lo na prisão pelo resto da vida.

    Diante dessas provações, Whip se entrega ao vício. Com isso, o personagem alterna momentos de fragilidade, com postura desleixada e olhar distante, com situações de confiança e arrogância, típicos de alguém sob efeito de cocaína. Washington faz uma das melhores atuações de sua carreira e convence como pessoa instável, decadente e orgulhosa, desempenho que justifica sua indicação ao Oscar.

    O roteiro de John Gatins (Gigantes de Aço) é bem direto e Zemeckis consegue criar suspense máximo até nas cenas mais simples. Em uma delas, um simples minibar nunca foi tão assustador. Cada situação é criada para captar a angústia de um homem prisioneiro de seus próprios vícios e as consequências para aqueles à sua volta.

    O grande mérito de O Voo são seus personagens. É difícil encontrar indivíduos tão profundos em filmes para o grande público. Como Nicole (Kelly Reilly), viciada em heroína que passa a viver com o piloto e, embora pareça estar em pior estado que ele, pelo menos tenta a recuperação. Ou o traficante Harling Mays (John Goodman), alívio cômico do filme, que tem uma relação parasítica com Whip.

    Embora os minutos iniciais de O Voo sejam impactantes, falar que o longa é algo além de um bom drama é exagero. O diretor evita correr riscos para criar um filme redondo, mas falta atravessar esse limiar, ir além do esperado e trazer um olhar novo ao tema. Ao menos é bom ver que Zemeckis não perdeu a mão depois de 12 anos envolvido exclusivamente com animações.