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    OLHE PRA MIM DE NOVO (2010)

    Apesar dos deslizes, o filme é digno e comovente
    Por Roberto Guerra
    24/05/2013

    Se bom e com história rica, um personagem vale o filme. Assim é Silvyo Luccio, protagonista deste road movie documental. Nascido mulher no interior do Ceará, sempre se sentiu confinado a um corpo com o qual não nunca se identificou. Depois de muito padecer, achou por bem distanciar-se dos familiares e buscar nova identidade, agora como homem.

    É este tipo fascinante e singular que expõe na tela, sempre de forma franca, o passado difícil, o presente ao lado da esposa, a difícil relação com a filha e as mudanças físicas que o tratamento hormonal lhe impõe. Uma história e tanto captada com sensibilidade e honestidade pela dupla Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

    Tudo vai bem em Olhe pra mim de Novo até o filme decidir tratar da diversidade humana e preconceito em plano mais abrangente. A proposta não se justifica e revela-se um erro fatal. É impossível ignorar a quebra de harmonia quando se insere a fórceps na trama outras histórias – todas com sua relevância particular, mas que soam como interrupção para a trama principal, espécie de desvio de rota mal calculado.

    Entre essas histórias alienígenas estão a de uma mulher que descobre décadas depois que o filho foi trocado na maternidade; um casal de primos cujos filhos são portadores da Síndrome de Barardinelli; e um grupo de jovens homossexuais. Todos pedindo para que se olhe para eles de novo, sem preconceito, sem pré-julgamentos.

    Enquanto esses dramas coadjuvantes se desenvolvem na tela, quem pede é o público para que o filme volte a olhar para o Silvyo Luccio de novo. Mesmo tomando parte nesses episódios como entrevistador, o foco não está mais nele. Isso enfraquece o documentário sacrificando a coesão narrativa que nunca deveria ter deixado de ater-se a seu personagem central.

    Apesar do deslize, Olhe pra mim de Novo é um filme digno, consciencioso e comovente. Até mesmo imprescindível num momento em que políticos evangélicos andam se proliferando e multiplicando com eles o preconceito e a discriminação no país.