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    ONDINE

    Encantadora trama de amor, rodada no mágico litoral irlandês<br />
    Por Celso Sabadin
    04/11/2010

    Começa como uma fábula: numa bucólica e romântica vila de pescadores irlandeses, Syracuse (Colin Farrell), vê emergir de sua rede de pesca uma linda e misteriosa mulher (a atriz e cantora polonesa Alicja Bachleda). Uma verdadeira sereia à beira da morte, salva pela respiração boca-a-boca do espantado pescador. Recuperada, a moça não quer ver ninguém além do seu salvador. E tampouco quer ser vista. Até Syracuse começa a questionar sua própria sanidade.

    Porém, o mundo real é inexorável, e talvez os novos tempos não estejam mais preparados para lendas e fábulas oníricas.

    É incrível a versatilidade do diretor Neil Jordan. Sarcástico em Café da Manhã em Plutão, melancólico em Mona Lisa, romântico em Fim de Caso, político em Michael Collins, soturno em Entrevista Com o Vampiro e polêmico em Traídos pelo Desejo, o cineasta irlandês agora transita com total desenvoltura entre a realidade e o conto de fadas no sensível Ondine.

    Seu personagem, Syracuse, já foi outrora comparado a um palhaço de circo, mas na verdade se assemelha mais a um malabarista ao tentar equilibrar ao mesmo tempo todas as pontas soltas de sua vida. Que não são poucas. Presa a uma cadeira de rodas, sua pequena filha Annie (Alison Barry) se encanta com as histórias do pai, enquanto aguarda um transplante. Filha, aliás, sob a guarda da ex-mulher alcoólatra de Syracuse. Que, por sinal, era também alcoólatra antes de lhe “cair a ficha” da paternidade. Uma vida nada fácil para quem vive à deriva das inconstâncias do mar, e agora se vê obrigado a administrar uma estranha “sereia” em sua casa. Como renegou o álcool, sua única válvula de escape passa a ser o impagável padre do vilarejo, vivido por Stephen Rea, ator-fetiche de Jordan.

    Esquilibrando-se entre realidade e fantasia, Syracuse é a linha condutora desta encantadora trama de amor e sonhos rodada no mágico litoral irlandês, de tantas histórias e lendas.

    Nos momentos finais, Ondine descamba um pouco para o policialesco, parece perder o rumo, mas logo se reencontra com sua proposta original para se configurar em mais um belíssimo trabalho do sempre aclamado Neil Jordan.

    Ondine foi indicado a oito IFTA (uma espécie de “Globo de Ouro” irlandês), e conquistou quatro.