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    OPERAÇÃO RED SPARROW

    Por Daniel Reininger
    28/02/2018

    Quem esperava que Operação Red Sparrow fosse como Atômica terá uma surpresa: o longa foca muito mais a espionagem e muito pouco a ação. Lembra mais a série The Americans, sem a mesma inteligência, do que o filme com Charlize Theron. E isso é algo positivo, afinal, temos poucas chances de ver thrillers de espionagem bem feitos hoje em dia.

    No longa, Jennifer Lawrence é uma espiã russa sensual, treinada para explorar os desejos sexuais de seus alvos. O filme tem uma premissa interessante, porém nem é leve o suficiente para ser apenas divertido e nem pesado e crítico o bastante para servir como reflexão sobre a questão do abuso e assédio. É um filme que não decidiu se queria conscientizar ou entreter e, por isso, fica aquém das expectativas.

    O diretor Francis Lawrence (Jogos Vorazes) tenta fazer um longa de espionagem sensual, mas sempre reforça o quão absurdo e errado é tudo aquilo, pesando a mão em diversas cenas. Porém, também é difícil levar a crítica do filme sobre desumanização a sério, exatamente pelo exagero da sensualidade.

    Se todas as cenas são construídas com um peso incrível, reforçando os traumas do abuso, por que não ir totalmente por esse lado? Ou se a ideia era fazer uma personagem sensual e badass, por que não focar apenas esse lado? Claramente foi um erro da direção ao não decidir um tom para a obra.

    Mesmo assim, o longa é curioso o suficiente para ser visto, afinal, em sua trama, Dominika Egorova é uma bailarina incapaz de voltar a dançar profissionalmente após um acidente no palco. Agora, ela tem que encontrar outra maneira de cuidar da mãe doente. Seu tio trabalha para o governo russo e, em troca de ajuda, ele pede à garota para seduzir um de seus maiores fãs, que é também uma ameaça ao governo.

    Após se envolver em assuntos secretos, Dominika passa a ter duas opções: a morte ou, por ser uma mulher sedutora, aceitar um trabalho como agente. Ela é então enviada para uma instalação de treinamento onde jovens mulheres e homens são ensinados a eliminar qualquer traço de humanidade e oferecer seus corpos ao estado a fim de trocarem sexo por informações. É um processo longo, com muitas cenas de violência, mas que funciona melhor do que o restante do longa.

    Pois é, depois disso o ritmo se perde, o roteiro fica previsível e as explicações mirabolantes se multiplicam, afinal, em apenas três meses de treinamento, o alto comando russo acha que Dominika está pronta para seduzir o espião americano Nate Nash (Joel Edgerton) e levá-lo a revelar o nome do traidor que opera de dentro do governo de Moscou. E tudo se complica ainda mais quando Dominika passa a ter outros planos em mente. Fica difícil acreditar na habilidade da garota em lidar com situações tão adversas, além do mais, a apatia da protagonista, sempre vítima de situações pesadas, é irritante em certos momentos, o que faz o clímax ficar ainda mais improvável.

    Operação Red Sparrow gasta tanto tempo destacando o sexismo e violência da sua história que é difícil dar muita atenção para a questão da espionagem e para os detalhes mirabolantes de seu plano. O filme tem uma bela fotografia e design de produção, mas nem mesmo isso tira a atenção da violência. Se o foco é a violência, faltou profundidade. Se era a espionagem, devia dar espaço para a narrativa tirar proveito de todas as nuances do tema.

    Além do mais, Jennifer Lawrence é talentosa, assim como o resto do elenco, mas absolutamente nenhum ator parece confortável na tela. Sem falar que Lawrence é vitima de abuso por todo o filme e sempre tratada como objeto por todos, quase parece que o cineasta e produtores não entenderam o peso da própria história.

    Perturbador e brutal, o longa não pode ser considerado entretenimento puro. Só que ao amenizar cenas de tortura e inserir reviravoltas simplórias na trama, daquelas que fazem sucesso com a maioria do público, por mais inexplicável que seja, perde a capacidade de ser tratado como um drama realmente sério.

    No final, temos um longa cheio de potencial, mas incapaz de lidar com sua própria temática sem se enrolar e cair em armadilhas óbvias. Dito isso, algumas cenas são simplesmente impactantes o suficiente para valer o ingresso, pena que também aprofundam a sensação de desperdício. Quem sabe da próxima vez o tom será decidido antes das filmagens e teremos uma produção de muita qualidade, como essa poderia ter sido se soubesse para onde seguir logo de cara.