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    OS BOXTROLLS

    Com monstos fofos e metáforas, animação ensina boas lições
    Por Júlia Fernandes
    01/10/2014

    Animação em stop motion com monstrinhos fofos que na verdade são super do bem e ensinam uma valiosa lição. Está aí uma receita de desenho bem agradável. E a ida ao cinema para conferir Os Boxtrolls, não importa gênero ou idade, valerá a pena, já que se trata de um filme bonito visualmente, bem humorado e com importantes questões a serem pensadas.

    Baseado no livro "A Gente é Monstro!", de Alan Snow, a história se passa na cidade Pontequeijo, onde criaturas conhecidas como boxtrolls são vistas como ladrões e assassinos de crianças, mas não passam de bichinhos que vestem caixas de papelão, vivem no subsolo e à noite passam nos lixos da cidade recolhendo pequenos tesouros. Em uma dessas saídas, acabam levando consigo um bebê e, enquanto a cidade pensa que ele foi morto, Ovo (que recebe esse nome por causa da caixa que veste) na verdade foi criado com muito amor e acredita ser um verdadeiro boxtroll. E quando seu protetor Peixe é levado pelo maligno Arquibaldo Surrupião, que está eliminando todas as "pestes" da cidade, ele resolve enfrentar seus medos e salvar os únicos que reconhece como família.

    A produção é fruto do estúdio LAIKA, responsáveis por Coraline E O Mundo Secreto e Paranorman, e tem direção de Graham Annable e Anthony Stacchi. Embora não tenha o mesmo apelo sobrenatural destes outros dois desenhos, Boxtrolls também conta com um ar mais sombrio e pesado, retratando uma difícil realidade semelhante ao que existe mundo atual, onde as pessoas são mesquinhas e as relações familiares, complicadas.

    A população de Portaqueijo idolatra o queijo e acredita em qualquer boato, apoiando as maldades do vilão Surrupião, que só pensa em conseguir a mesma riqueza do prefeito, Lorde Roquefort. A questão da avareza, maldade, preconceito e outros problemas são mostrados em metáforas e situações de adversidade para os personagens, mas sempre com um toque de humor.

    Além da história, merece destaque também a dedicação aos detalhes da produção dos cenários, meio esquisitos e distorcidos, mas ao mesmo tempo atrativos. A incrível caverna onde moram as criaturas, com suas engenhocas que vão desde instrumentos feitos de objetos improváveis até várias lâmpadas no teto imitando um céu estrelado, não perde em charme para a cidade, ora ensolarada e alegre de dia, ora escura e assustadora à noite. O mesmo também vale para o figurino e a aparência dos personagens, que enchem os olhos com suas peculiaridades.

    Ainda que o enredo seja bem previsível, é na personalidade de cada um e na subjetividade de suas atitudes que estão as lições que o filme deixa, tanto para crianças como adultos. Exemplo disso é a pequena Winnie, de gênio forte e carente do pai Lorde Roquefort, que encontra em Ovo, um amigo, e nos boxtrolls, uma chance de mudar a realidade de onde vive. Também é interessante ver que os capangas de Surrupião duvidam se são de fato heróis da cidade ou se sua crueldade com os monstrinhos é errado. E não podemos esquecer uma das grandes ironias do filme: o próprio vilão que passa por cima de tudo e todos para conseguir o status da degustação de queijos, mas sofre uma nojenta reação alérgica toda vez que come a iguaria.

    A sonorização do filme também empolga, com uma trilha sonora que usa as músicas para complementar o clima de cada cena, seja tenso ou alegre. Além disso, as dublagens são agradáveis e os boxtrolls recebem um toque de "fofura" a mais, pois falam uma língua que não existe, mas mesmo assim são totalmente compreensíveis, semelhante aos minions de Meu Malvado Favorito.

    Usar um monstrinho simpático que pratica o bem já é um método conhecido das animações, e em alta na atual época de adoração a zumbis e vampiros, e Os Boxtrolls entra para a lista dos que valerá a pena rever, assim como O Estranho Mundo De JackA Noiva-cadáver e as outras duas belas produções do LAIKAS. Embora alguns personagens e facetas da aventura pudessem ter sido mais explorados, como as outras crianças e as estranhezas da autêntica Portaqueijo, espera-se que isso seja remediado numa possível continuação, já que a obra de Alan Snow tem bastante pano para a manga e todo um mundo cujo filme só arranhou a superfície. E fica um último lembrete: permaneça sentado durante os créditos.