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    OS HERDEIROS

    Por Da Redação
    22/05/2009

    Raridade: uma produção austríaca chega ao circuito paulistano neste final de semana. Depois de ter sido exibido na Mostra Rio 98 e estreado na capital carioca no ano passado, Os Herdeiros finalmente ganha as telas de São Paulo. Ou melhor, “a tela”, já que ele está sendo exibido apenas no Top Cine. Envolvente e inteligente, o filme merecia um circuito maior.

    Tudo começa com a morte de um rico fazendeiro. Sem parentes, ele deixa em testamento toda a propriedade para os seus dez empregados, o que causa uma pequena revolução no lugar. Latifundiários vizinhos – sedentos por comprar as terras do falecido – não aceitam que simples camponeses sejam lançados sem mais nem menos à condição de proprietários. A burguesia da cidade se ofende porque – agora donos de terra – os simplórios ex-empregados podem ocupar os bancos dianteiros da Igreja. E, o “pior” de tudo: inspirados pelo exemplo, camponeses das fazendas vizinhas começam a exigir seus direitos. Sem intenção, o testamento do fazendeiro provocou uma pequena reforma agrária.

    Os Herdeiros transporta para a zona rural austríaca toda a milenar e universal luta de classes provocada pela posse – ou não – de terras. A simples leitura de um testamento causa na burguesia local a mais profunda consternação: como aceitar incultos e analfabetos como iguais? Como alterar as leis da tão segura e bem-vinda imobilidade social? “Deus quer que tudo permaneça igual ao que sempre foi”, chega a afirmar um dos personagens. Exatamente um poderoso fazendeiro que – claro! – se vê no direito de falar em nome de Deus.

    Por outro lado, as coisas também não são fáceis para os herdeiros. “Antigamente o patrão dizia tudo o que a gente deveria fazer. Agora, que somos donos do próprio nariz, tudo é muito mais complicado”, diz o analfabeto camponês Lukas, num momento de desilusão. De repente, todos se vêem obrigados a decidir, planejar, criar, enfim, pensar. O amadurecimento é compulsório e inevitável.

    O custo da evolução, a intolerância, a competição, o medo do diferente... são vários os temas abordados pelo filme. São várias as leituras oferecidas pela trama. A ambientação simples e bucólica de uma fazenda austríaca é apenas uma opção de roteiro. A luta de classes e as lições de vida que Os Herdeiros projeta na tela acontecem diariamente em qualquer ponto do mundo. Vale a pena ser conferido.


    29 de novembro de 2000
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão e do Canal 21. Às sextas-feiras é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br