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    Os Nove do Mangrove é filme emocionante e politizado

    Quando os sonhos são rompidos, é necessário lutar para restabelecê-los
    Por Maria José Barros
    09/03/2021 - Atualizado há cerca de 1 mês

    Small Axe, o mais recente projeto do premiado diretor britânico Steve McQueen, recebeu esse nome em homenagem a um provérbio imortalizado na música de Bob Marley: “Se você é uma árvore grande, nós somos o machado pequeno”. A antologia de filmes, que alguns podem chamar de série, já carimba em seu nome o seu objeto e recorte: McQueen quer falar dos imigrantes das Índias Orientais no Reino Unido nas décadas de 1960 a 1980, pequenos machados oprimidos que lutaram, viveram e amaram, afrontando as árvores frondosas do colonialismo e racismo britânicos. Ao longo dos seus cinco filmes, o diretor aborda os mais variados assuntos, que vão desde a violência policial, um dos temas mais presentes, até o encanto dos amantes em uma noite de baile nos anos 1970. A marca autoral de McQueen se evidencia com clareza nesse projeto: o seu cinema é majoritariamente sobre como os sonhos das pessoas negras são interrompidos por injustiças sociais e como essas mesmas pessoas devem lutar para restabelecê-los, mesmo que não de forma completa. Há um espectro onírico de concretude nessas obras, um poema sociológico marcado pela força do sentimento.  

    Os Nove do Mangrove (2020), o primeiro filme da antologia, lança um olhar apurado em um dos mais emblemáticos acontecimentos históricos britânicos do século XX, conhecido como Mangrove Nine. Após uma série de assédios da polícia contra o restaurante Mangrove, um dos epicentros identitários da comunidade negra de imigrantes e filhos de imigrantes das Índias Ocidentais, um grupo de intelectuais e ativistas negros decidem marchar até a delegacia local para protestar contra a violência policial, mas nove deles acabam vítimas de vários processos, caindo inclusive na Vara Criminal por distúrbio da ordem. O fato é reconhecido hoje por ter sido o primeiro processo envolvendo racismo contra a polícia britânica.

    No filme, McQueen parte da perspectiva de Frank Crichlow, dono do Mangrove e um dos principais alvos da polícia no bairro Notting Hill. Quase incapaz de tocar seu negócio por conta das frequentes batidas policiais, ele é encorajado a lutar contra o sistema ao invés de apenas sobreviver a ele. Dentre seus principais incentivadores estão a membra dos Panteras Negras Altheia Jones-LeCointe e o casal de ativistas Darcus Howe e Barbara Beese. Os personagens, de uma forma geral, possuem crises identitárias por serem negros na Europa e, ao mesmo tempo, pela questão da nacionalidade ou origem. O antagonismo é incorporado na figura do policial racista Frank Pulley, responsável pela perseguição dos cidadãos negros do bairro. O subgênero de filmes de tribunal é trabalhado com competência, há uma organicidade nesse momento que filmes como Os 7 de Chicago (2020), de Aaron Sorkin, não conseguirão captar.

    Frank acaba se tornando um mártir forçado por sua tentativa de manter seu restaurante como um espaço para a comunidade negra. A jornada do personagem ao longo do filme é sobre aceitar ou não esse lugar. Há um dilema aqui, que fica mais evidente quando a trama parte para o tribunal. Ele é a força centrípeta da comunidade, mesmo sem querer, porque seu restaurante transcende a ideia de um negócio, e acaba representando essa comunidade, o que é reforçado no julgamento. Portanto Frank é o personagem que sustenta um sonho, simples, quase ordinário, mas que é impedido por forças contrárias, aqui especificamente o racismo de toda uma sociedade, a xenofobia e a violência policial. Nesse aspecto, ele não se difere muito do músico americano Solomon Northup de 12 anos de escravidão (2014) ou do jovem policial negro Leroy Logan de Red, White and Blue (2020). O sistema é branco e o capitalismo é racista. Se Frank não lutar, perde tudo.

    Para criar esse ambiente entre sonho e pesadelo, o diretor opta por uma mise en scène guiada pela emoção. Para estabelecer Frank como um microssistema do eixo dramático (um homem lutando dentro de uma comunidade), McQueen não se furta de planos abertos, travellings e aproximações dramáticas. A comunidade é exibida logo na primeira sequência, com a câmera acompanhando Frank ao Mangrove ao som de música caribenha e de uma narração sobre os ideais do homem da época. A câmera ganha fluxo próprio tanto nas cenas das batidas policiais quanto nas comemorações e festas. Há uma preocupação com a movimentação dos corpos que torna a decupagem quase barroca, marcada por excessos e comedimentos. A ação é privilegiada e, em momentos mais intensos, há menos cortes, o que possibilita aos atores mais espaço dramático. Há economia de planos estáticos em uma tentativa fria de fugir do pragmatismo formalista.  

    Em alguns enquadramentos, McQueen deixa mais claro sua força de impor sentimentos e sensibilidade em detrimento de informações mais concretas, verbalizadas. Há dois bons exemplos. O primeiro se refere à cena em que Frank é detido no tribunal injustamente e fica de costas para uma janela com uma luz intensa. É como se a luz representasse a liberdade dele, algo sempre distante. No segundo, Darcus faz seu discurso final no tribunal, uma bela peça sobre questões sociais e injustiças que os negros sofrem e sobre a sua luta. A galeria de convidados é enquadrada acima dele, lotada de pessoas negras, como se eles estivessem compondo a força do discurso.  

    Nas implicações dramáticas dessa adaptação há uma vilania muito bem direcionada na figura dos policiais, não só nesse filme do Small Axe. Pulley representa de forma espetacular o homem britânico médio, frustrado por não ter conseguido nem passar nas provas de promoção da polícia. A atuação fria de Sam Spruell é contraposta por planos detalhes de suas mãos nervosas cruzadas nas costas. Já Shaun Parkes está sempre levando seu Frank ao limite da carga emocional. Seu personagem, que possui o arco dramático mais intenso e delineado, é de uma concretude calorosa, em muito por se tratar de uma figura real, representando a personificação desse plano onírico perseguido pelos filmes de McQueen.  

    Os Nove do Mangrove é o pontapé inicial importante para o projeto Small Axe e para a ambição estilística de McQueen. Os mesmos temas serão abordados nas demais obras, e há momentos em que ele toca o sublime aqui. O diretor entra para uma curta lista (lamentavelmente) de diretores negros que aliam um aparato estético robusto com a preocupação com temas socialmente relevantes que assolam a negritude e as demais minorias. Há cheiro de Oscar aqui.