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    PEARL HARBOR

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    A crítica americana já apelidou Pearl Harbor de “O Titanic do ano 2001”. Será mesmo? Provavelmente não. Por um lado, o apelido é perfeitamente compreensível. Assim como Titanic, Pearl Harbor também conta uma história de amor fictícia, ambientada numa mega tragédia real. Assim como Titanic, Pearl Harbor também é uma superprodução impressionantemente recheada de efeitos especiais de última geração. Porém, a trama de Titanic é muito melhor. Parece totalmente improvável que Pearl Harbor supere o filme de James Cameron em bilheteria, número de prêmios Oscar, comoção e catarse coletiva. Principalmente por causa da fragilidade do seu roteiro, que se assemelha a um dramalhão mexicano.

    A história se passa em 1941, quando a Europa já está em Guerra, mas os Estados Unidos ainda não. Líderes europeus acusam o presidente Roosevelt (muito bem interpretado por Jon Voight, numa maquiagem bastante convincente) de ficar em cima do muro.

    Enquanto isso, Rafe (Ben Affleck, de Mais Que o Acaso), um jovem aviador americano, se apaixona perdidamente pela bela enfermeira Evelyn (a inglesa Kate Beckinsale). Exímio piloto, Rafe é convidado pela RAF (o trocadilho é infame, mas inevitável) para lutar na frente européia, do lado dos ingleses, já que os americanos continuam se mantendo fora do conflito. Para o desespero de Evelyn, Rafe aceita o convite e – literalmente – vai à luta. Nem é preciso dizer que a bela enfermeira está servindo o exército exatamente na base militar de Pearl Harbor, no Havaí.

    A partir daí, muita água vai rolar debaixo dos porta-aviões, já que todo bom estudante de história sabe que em 7 de dezembro de 1941 o Japão desferiu um mega ataque contra Pearl Harbor, matando mais de 2 mil americanos e provocando finalmente a saída dos EUA de cima do muro da guerra.

    A representação cinematográfica deste ataque é a melhor coisa do filme. Graças ao que há de mais moderno em maquetes, imagens geradas por computador e efeitos mais do que especiais, a batalha é recriada em 35 impressionantes minutos. Todos os 140 e tantos milhões de dólares investidos na produção ficam visíveis na tela. A cena onde um ponto de vista virtual acompanha a queda de uma bomba japonesa até o convés de um navio americano já pode ser considerada antológica. Aviões passam chispando na altura dos olhos do espectador. A movimentação é alucinante. Mas nada disso é suficiente para encobrir a fragilidade do roteiro escrito por Randall Wallace, o mesmo roteirista de O Homem da Máscara de Ferro e Coração Valente. O melodramático corre solto, o desenvolver das ações é previsível e o carisma dos personagens e atores é desperdiçado numa história rala. A direção de Michael Bay (o mesmo de Armaggedon) privilegia o espetacular e o espetaculoso e falha quando o assunto é sutileza. Fica claro que o projeto foi desenvolvido dentro de propósitos unicamente comerciais e técnicos, deixando a sensibilidade e a arte cinematográfica em segundo plano. Uma pena!

    Nem vale a pena discutir o aspecto patriótico do filme. Ou alguém duvidava que – como sempre – os americanos heróis seriam pintados como mocinhos limpinhos e os japoneses bandidos seriam mostrados como traiçoeiros criminosos? Isso já era mais que esperado.

    É lastimável, porém, que os produtores norte-americanos ainda não tenham conseguido aliar técnica com conteúdo, efeitos especiais com sensibilidade fílmica, computadores com linguagem cinematográfica. Percebe-se claramente em Pearl Harbor a intenção de ser compreensível e consumível por todo e qualquer tipo de público, nivelando a história por baixo e eliminando qualquer detalhe que eventualmente pudesse não ser inteligível para a grande massa da população consumidora de ingressos de cinema.

    No final de praticamente três horas de projeção, fica a sensação de desperdício. A nítida impressão de que Jerry Bruckheimer e seus colegas, buscando única e exclusivamente a bilheteria fácil, perderam uma grande chance de entrar para a história do cinema. O filme memorável que os impecáveis trailers de Pearl Harbor prometiam ficou apenas na intenção.

    E agora? Quem se habilita a ser “o Titanic do ano 2002?”

    29 de maio de 2001

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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Televisão, Canal 21, Band News e Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br