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    POLÍCIA, ADJETIVO

    Um filme sobre a cultura policial, não sobre ação policial.
    Por Heitor Augusto
    18/11/2009

    O romeno Corneliu Porumboiu (A Leste de Bucareste) joga mais lenha em um assunto tratado na filosofia, nas artes, nas ciências: o que é a lei? Polícia, Adjetivo volta a relembrar que ela não passa de uma construção a partir da moral.

    Uma crítica ferrenha sobre o uso da Justiça, da lei e dos policiais. A primeira coisa que Porumboiu se nega a fazer é retratar o cotidiano de um policial como algo repleto de ação. Cristi (Dragus Bucur) segue diariamente três estudantes que fumam haxixe para descobrir quem é o fornecedor da droga. Sem perseguições alucinadas, músicas que criem suspense ou personagens que fazem caras e bocas. Tudo muito cru, simples, sem maquiagem.

    Não se trata de mostrar a realidade no filme, mas sim de transmitir verdade na história que está sendo contada. E nisso Polícia, Adjetivo cumpre o seu papel. Um filme sobre a cultura policial, não sobre ação policial.

    Se Cristi passa o dia inteiro na frente da casa de um dos garotos, o diretor faz questão de estender esse tempo para nos transmitir a sensação do quão chatas e sem sentidos foram aquelas horas de observação de seu personagem. À primeira vista, um filme cansativo, mas, se chegarmos mais perto dele, percebemos o casamento perfeito entre forma e conteúdo.

    Esse clima aparentemente tedioso leva a uma sequência final poderosa, que envolve o embate do policial e seu chefe. Na mesa, estão a consciência e uma disputa interminável em cima do significado da palavra. Aí está a maior acidez da crítica: da maneira em que a lei é interpretada e executada. Processo e trabalho, não interessam. O que o chefe quer é o resultado rápido e a aplicação do que está escrito.

    A lei e o sentido são construídos e dependem das flutuações do conceito de moral. Escravidão, no século 19, era “normal”; hoje, é execrada socialmente. É basicamente isso que Polícia, Adjetivo defende: o sentido, a moral e como os conceitos de condenável e defensável mudam ao longo do tempo. Parece óbvio, mas os 113 minutos de filme provam que não é bem assim. Pão não é pão, nem queijo é queijo.