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    POLLOCK

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Ed Harris merecia esta chance. Bom ator ele sempre foi. Depois de atuar quase sempre como coadjuvante em ótimos filmes como Lado a Lado, Os Eleitos, O Show de Truman e vários outros, Harris mostra que também tem talento para a direção cinematográfica. Seu filme Pollock, retratando a vida do artista plástico Jackson Pollock, é prova disso.

    Interpretado, produzido e dirigido por Harris, Pollock é, até o momento, o projeto mais pessoal da sua carreira. A idéia permaneceu amadurecendo em sua mente por quase dez anos e foi ele mesmo o maior responsável pelo levantamento dos US$ 6 milhões que custou a produção. Custo irrisório para um filme que chegou a ter duas indicações para o Oscar: Márcia Gay Harden, vencedora do prêmio de atriz coadjuvante, e o próprio Ed Harris, indicado como ator (perdeu para Russel Crowe de Gladiador).

    A ação do filme começa nos anos 40, no bairro boêmio de Greenwich Village, em Nova York. Naquele momento, Jackson Pollock ainda é um artista pouco conhecido. Seu alcoolismo e seu gênio irascível em nada contribuem para a sua ascensão profissional e artística. Quem o tira do anonimato e da sarjeta é sua namorada (e posteriormente esposa), a também artista plástica Lee Krasner, papel de Marcia Gay Harden. Dentro do velho pensamento de que “atrás de um grande homem sempre existe uma grande mulher”, é ela quem administra a vida do companheiro, abrindo-lhe as portas do mercado das artes, incentivando sua pintura e, na medida do possível, mantendo-o longe do álcool. Uma verdadeira amante de cama, mesa e tela.
    Foi Krasner também quem apresentou Pollock a Peggy Guggenheim, uma das mais importantes mecenas das artes da época.

    Pollock é o tipo do filme que tinha todos os elementos para se transformar numa obra pesada e intragável: seu protagonista é um bêbado insuportável e agressivo, os personagens reais enfocados pelo roteiro estão longe de ser personalidades conhecidas do grande público e – sem querer entregar o final da história – o desfecho da trama não é dos mais agradáveis. Felizmente, porém, a direção de Harris é magnífica e equilibrada: ele não tripudia à exaustão em cima dos momentos mais densos, ao mesmo tempo em que sabe como abrir espaço à verdadeira razão de ser do filme: a revolucionária arte de Jackson Pollock, que pintava sem pincéis, derramando magicamente as tintas sobre a tela.

    Baseado no livro Jackson Pollock: An American Saga, de Steven Naifeh e Gregory White Smith, o filme brinda o público com um invejável apuro técnico e visual. A diretora de fotografia Lisa Rinzler utilizou cores e ambientações inspiradas no pintor Edward Hopper. O desenhista de produção Mark Friedberg recriou em minúcias a casa de campo onde Pollock e Krasner moraram, o celeiro vizinho no qual o pintor montou o seu ateliê e até mesmo o mercadinho em que ele fazia compras. Além disso, o figurinista David Robinson realizou um intenso trabalho de pesquisa, já que o casal era conhecido também por estar sempre à frente de seu tempo em questão de vestuário. Foi Pollock, por exemplo, uma das primeiras celebridades a usar jeans e camiseta branca.

    Tudo isso faz do filme um vibrante painel do mundo artístico norte-americano dos anos 40 e 50. Um registro ao mesmo tempo histórico e cinematográfico de um gênio criativo pouco ou nada conhecido do grande público. Principalmente do brasileiro. Pollock é um filme que merece ser conferido por quem gosta do cinema de qualidade, que pode abrir as difíceis portas de Hollywood para o talento do – agora diretor – Ed Harris.

    8 de maio de 2001

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    Celso Sabadin é jornalista e crítico de cinema da Rede Bandeirantes de Televisão, Canal 21, Band News e Rádio CBN. Às sextas-feiras, é colunista do Cineclick. celsosabadin@cineclick.com.br