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    PRAIA DO FUTURO

    Filme convida público a decifrar seus personagens
    Por Roberto Guerra
    13/05/2014
    8/10

    PRAIA DO FUTURO

    14
    Drama

    O cineasta Karim Aïnouz é do tipo capaz de transformar qualquer história cotidiana em algo interessante. Consegue isso dando substância e densidade a seus personagens num grau que é impossível ignorá-los ou se mostrar desinteressado. Eles independem de grandes ações transformadoras para se revelarem na tela. Ao contrário, sua passividade, incertezas e contradições são o que os humanizam, o que nos aproxima deles. Cativantes e nunca improváveis, podem ser um parente, vizinho ou amigo nosso. Como Donato (Wagner Moura), protagonista de Praia do Futuro.

    Ele é um militar do corpo de bombeiros que atua como salva-vidas na famosa praia cearense que dá nome ao longa. Depois de uma frustração no trabalho, que o leva inadvertidamente a conhecer o turista alemão Konrad (Clemens Schick), Donato abandona tudo no Brasil, inclusive o irmão mais novo, Ayrton (Jesuíta Barbosa na fase adulta), que o venera, e parte para Berlim com o novo amor. Anos depois, terá de se confrontar com o irmão, que vai à Europa atrás dele e de respostas.

    Uma trama simples que Aïnouz converte num belo e pungente filme sobre perda e busca, temas recorrentes em sua filmografia de personagens sempre em trânsito, à procura de decifração para suas inquietações existenciais. Por isso as motivações de Donato não ficam claras de pronto para o espectador. E isso porque não são tangíveis nem mesmo pra ele. São por meio de pormenores que vamos entendendo seu comportamento ao passo que ele mesmo vai se compreendendo.

    Esse exercício participativo que o diretor convida o público a fazer faz de Praia do Futuro uma obra genuinamente cinematográfica. No sentido de que o local ideal para apreciá-la é mesmo uma sala de cinema. Aïnouz faz o escuro e a tela grande serem indispensáveis para se exercer a concentração e com isso conseguir apreender minudências que revelam muito. Detalhes imprescindíveis para o desenrolar da história.

    Filmes assim naturalmente dependem bastante de seus atores, da capacidade deles em contar muito verbalizando pouco ou nada. E o trio de protagonista funciona muito bem. Wagner Moura, como de hábito, se desafia num trabalho difícil e tem êxito. Donato carrega suas aflições e vivências no olhar, como se pudéssemos enxergar seu passado mesmo estando diante apenas do presente encenado. E essa tridimensionalidade está presente também nos personagens do alemão Clemens Schick e da revelação brasileira Jesuíta Barbosa (de Tatuagem).

    Praia do Futuro tem sua força nos personagens densos e repletos de humanidade, mas não por isso Karim Aïnouz esquece-se do entorno. A produção é bem-acabada e alinhada com a história da fotografia à trilha sonora. Ao final, o cenário habitual: a estrada. Ela está sempre presente nos filmes do diretor, não só porque diz muito sobre os tipos que leva à tela, mas parece encarnar também sua disposição em ir adiante. No caso, em direção a um cinema cada vez mais afiado.