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    OS SUSPEITOS

    Personagens frágeis meramente a serviço da trama
    Por Roberto Guerra
    13/10/2013

    Existe grande diferença em personagens construídos para compor uma trama e personagens desenvolvidos para servir aos interesses dramáticos do roteirista. Neste suspense, o texto de Aaron Guzikowski (Contrabando) trata os protagonistas como peças num tabuleiro de xadrez que ele movimenta a seu bel prazer em busca, talvez, de originalidade.

    São como peões dispostos de casa em casa para fazer as engrenagens do intricado quebra-cabeça que o roteirista criou se encaixarem. Guzikowski achou que bastava uma forte motivação para embasar as decisões que tomou e fazê-las transformarem-se nas decisões dos personagens. As imperfeições da estratégia revelam-se antes para o espectador do que os segredos do filme.

    A motivação aguda é o desaparecimento das meninas Anne e Joy. Anne é filha de Keller Dover (Hugh Jackman) e Grace (Maria Bello); Joy, a caçula de Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis), seus vizinhos. Os amigos comemoram o Dia de Ação de Graças na casa de Franklin e as garotinhas somem misteriosamente quando vão a casa dos pais de Anne atrás de um brinquedo.

    No bairro, pacato e pouco movimentado, as suspeitas logo recaem sobre um velho trailer visto momentos antes estacionado na rua. Uma câmera que segue o carro até o local já antecipa que a vileza é passageira do veículo. A polícia é acionada e, com a descrição do automóvel, não demora a achá-lo.

    Quem se encaminha para o local é o detetive Loki (Jake Gyllenhaal). O trailer é achado com seu motorista, Alex (Paul Dano), que tenta escapar da polícia. O rapaz, que tem problemas mentais, é interrogado e diz nada saber das meninas. Como a perícia não encontra nenhum indício que o comprometa no veículo, ele é solto, o que revolta o pai de Anne.

    Neste momento do filme – na verdade, bem antes – a tensão está eficientemente estabelecida. O diretor Denis Villeneuve (do ótimo Incêndios) soube sustentar com eficácia o clima de suspense. A trilha incidental bem colocada, sem exageros, e a fotografia lavada ajudam o espectador a compartilhar a aflição e desalento do momento.

    Keller, inconformado com a libertação de quem acha ser o responsável pelo desaparecimento de sua filha, resolve agir por conta própria. Fica de campana na frente casa de Alex até que se desenrola a primeira cena que ratifica o que mencionei no início deste texto e começa a fazer o filme descer a ladeira.

    O rapaz, que mora com a tia, sai de casa à noite para passear com o cachorro e faz uma exibição gratuita de maus tratos a animais em frente a Keller. A cena não se destina ao personagem de Jackman, é um arranjo para manipular as impressões do público da pior maneira. As reações e condutas parecem não brotar dos personagens e sim serem inoculadas neles.

    Desse momento em diante o longa tenta flertar com questões morais, como a validade de se fazer justiça com as próprias mãos; e o faz de forma tacanha. O ápice se dá na atitude do personagem de Terrence Howard, que acha absurdo torturar um homem para, logo em seguida, segurá-lo e deixar que outro transforme a vítima em saco de pancada. Não faz sentido dramático, como muitas coisas em Os Suspeitos.

    Quando chegamos ao "the end" somos remetidos à cena inicial: o personagem de Hugh Jackman está com o filho mais velho, um adolescente (personagem mal desenvolvido que nada acrescenta), caçando veados. O garoto abate o animal com um tiro certeiro. O pai fica exultante. No carro, voltando pra casa, faz um discurso sobre sobrevivência para o filho. Só quando estamos aqui vemos que essa, como tantas outras cenas, não servem de nada.