cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    QUANTO MAIS QUENTE MELHOR

    Ainda atual, comédia explora com inteligência os papéis de gênero e a identidade sexual na sociedade<br />
    Por Roberto Guerra
    30/07/2012

    Comédias em que homens se travestem de mulher são um prato cheio para o riso fácil. Ver um marmanjo tentando agir como uma dama por si só já é engraçado, isso sem falar nas diferenças anatômicas. Prova disso se vê na lista das 100 maiores comédias de todos os tempos do American Film Institute. Em primeiro lugar está Quanto Mais Quente Melhor, que volta agora aos cinemas brasileiros como homenagem aos 50 anos de falecimento da atriz Marilyn Monroe. A segunda posição é de Tootsie, filme que trás Dustin Hoffman vestido de mulher. Na mesma lista, na 67ª posição, está Uma Babá Quase Perfeita, com Robin Williams vivendo uma senhora.

    Lançada em 1959, é impressionante como Quanto Mais Quente Melhor não envelhece com o tempo. Revendo-a para escrever essa crítica, ri e me diverti como há 15 anos, quando a assisti pela primeira vez. Dirigido por Billy Wilder e estrelado também por Jack Lemmon e Tony Curtis, o longa traz a história de dois amigos, Joe e Jerry, que, após presenciarem um assassinato, precisam deixar a cidade o quanto antes. A única saída é se travestir e entrar para uma banda formada apenas por mulheres, que está prestes a partir para uma turnê em Miami. É na viagem que eles conhecem Sugar Kane (Monroe), uma bela mulher atrás de conquistar um milionário.

    Ver Curtis e Lemmon vestidos como mulheres de aparência duvidosa já é motivo para o riso, mas a decisão acertada de contrastá-los com o vulcão de feminilidade que é Marilyn Monroe torna tudo ainda mais divertido. E não só pelo contraste em si, mas pelo típico papel interpretado pela atriz: a mulher ingênua que ignora completamente o efeito que seu corpo está causado e parece confusa com as pessoas agindo de modo estranho a sua volta.

    Além do elenco afinado, outro ponto alto que faz de Quanto Mais Que Melhor uma excelente comédia é a habilidade de Billy Wilder como roteirista e diretor. Sem nunca subestimar a inteligência do público, ele começa o filme sem pressa de arrancar gargalhadas. Vai apresentando seus personagens num primeiro ato que lembra mais uma história de gângsteres convencional do que uma comédia. Num segundo momento, já conhecendo a dupla Joe e Jerry e seus motivos, somos levados direto para a estação de trem onde as agora Daphne e Josephine embarcam para a Flórida.

    Confiante em seu roteiro, Wilder já nos mostra os protagonistas já vestidos de mulher sem nos fazer perder tempo com uma óbvia sequencia mostrando a transformação. Seria fácil, faria rir, mas não era intenção do cineasta buscar o riso na situação cômica, mas do todo de uma comédia que explora com inteligência os papéis de gênero e a identidade sexual na sociedade.

    Sabiamente, Wilder decidiu filmar em preto-e-branco. O objetivo era disfarçar a maquiagem pouco convincente usada pelos atores, que os deixava com cara de travestis. O problema maior foi convencer Marilyn Monroe, na época uma grande estrela cujo contrato exigia que todos seus filmes fossem em cores, de que essa opção era a mais acertada.

    Este, no entanto, foi o menor dos problemas de Wilder com a diva. As famigeradas dezenas de tomadas necessárias para que ela acertasse uma frase, durante as gravações, quase o levaram à loucura. Na época, desabou em tom de ironia: “Uma boa cena com Marilyn significava extrair as falas como um dentista arranca dentes, mas nesse caso quem sentia dor era o dentista”. Mas o esforço valeu a pena: no filme a presença de Marilyn Monroe é arrebatadora e não deixa dúvidas sobre o porquê do mito criado em torno da beleza e sensualidade da loira.

    Quanto Mais Quente Melhor ganhou somente o Oscar de Melhor Figurino, apesar de ser indicado em outras cinco categorias: Diretor, Ator (Jack Lemmon), Roteiro Adaptado, Fotografia e Direção de Arte, o que evidencia o tradicional desprezo da Academia por comédias.