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    RAFIKI

    Por Sara Cerqueira
    21/08/2019

    A homofobia é um dos preconceitos que estruturam praticamente todas as sociedades. Por estarmos em um país extremamente hostil a LGBTQs (o Brasil registra um homicídio por homofobia a cada 23 horas), é comum pensarmos que nosso país é um dos únicos no mundo que abusam, maltratam, hostilizam e assassinam cidadãos homossexuais. Entretanto, sabemos que tal preconceito faz parte da história das civilizações ocidentais e orientais do planeta.

    Em Rafiki, filme da diretora queniana Wanuri Kahiu, conhecemos uma bela história de amor e as consequências de uma sociedade misógina e homofóbica na vida de duas jovens garotas quenianas apaixonadas, vítimas de uma sociedade tradicionalista e que valoriza apenas as relações que possuam uma presença masculina. Kena (Samantha Mugatsia) é uma jovem que já presenciou, observando o sofrimento da própria mãe, o sofrimento ao qual as mulheres são submetidas quando não possuem uma presença masculina do lado. Ziki (Sheila Munyia) tem em suas amigas e na dança uma válvula de escape de um cotidiano pouco criativo e acolhedor, especialmente com as mulheres. Quando as duas garotas se apaixonam, acabam tendo que enfrentar a hostilidade de uma comunidade conservadora e presa a tradições desumanizantes contra mulheres e homossexuais.

    Um dos elementos mais bem trabalhados do longa de Wanuri Kahiu é a estreita relação que a diretora fez questão de construir entre a misoginia e a homofobia (no caso das garotas, mais especificamente a lesbofobia). A ideia de superioridade masculina é cultuada em todas as relações sociais (desde a celebração com muito mais ênfase do nascimento de um bebê menino na família até o casamento de uma mulher jovem com um homem que possa provê-la) e, na relações amorosas, isso não poderia ser diferente. Mesmo com a ascensão da mulher a cargos de poder, chefia e seu acesso aos estudos ter sido arduamente conquistado, ainda espera-se que exista um casamento no qual ela tire proveito financeiro e seja "protegida" pelo seu marido. Isso tudo soa familiar, né? Logo, espera-se que uma relação amorosa e/ou sexual entre homens ou mulheres quebra essa lógica e enfureça a sociedade. No longa, as protagonistas são, o tempo todo, vítimas de situações preconceituosas que alternam entre a misoginia e a lesbofobia. Ao fim, sabemos que ambos os preconceitos se retroalimentam e não sobrevivem sozinhos.

    Para além dos comentários sociais e da crítica ao estilo de vida interiorano (onde todo mundo está vigiando constantemente a vida de todo o mundo), o longa se retrai dramaticamente e economiza por demais nos arcos e camadas dos personagens, inclusive das próprias protagonistas. Apesar do cast trabalhar bem, o filme peca pela simplicidade do roteiro e acaba investindo todas as suas forças apenas em seus comentários sobre o preconceito (que são válidos e devem ser a prioridade, mas poderiam ter como base personagens e situações mais complexos).

    Entretanto, essa falha não nos priva totalmente de uma experiência agradável. Com uma lindíssima paleta de cores (que incorpora de maneira suave e natural cores vibrantes e fluorescentes) e cenários familiares, o longa nos faz empatizar com dores que, infelizmente, são sentidas por seres humanos ao redor de todo o mundo.

    Mesmo que ensinando o básico da luta contra a homofobia, Rafiki nos conta uma comovente história de amor na adolescência em meio ao ódio.