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    REGRAS DO JOGO

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Depois do desmantelamento da União Soviética, os Estados Unidos não sabem mais onde procurar inimigos. Saddam Hussein - ´tadinho – já virou até personagem de South Park. Agora, os belicistas americanos apontam suas metralhadoras giratórias (e põe metralhadora nisso) contra os árabes do Iêmem, perto do Golfo Pérsico. É lá que se inicia a ação do drama de guerra Regras do Jogo, estrelado pelos ótimos Tommy Lee Jones e Samuel L. Jackson.

    Jackson vive o papel do Coronel Childers. Militar experiente, ele é designado para liderar uma violenta e perigosa operação de resgate do embaixador norte-americano (Ben Kingsley), sitiado no Iêmem. Terminada a ação militar, contabiliza-se o saldo trágico: 83 mortos. Entre eles, mulheres e crianças. E o respeitado Coronel vai parar na Corte Marcial. Para defendê-lo, Childers procura um velho amigo da época do Vietnã, o também Coronel Hodges (Tommy Lee Jones), já prestes a se aposentar, e com sérias dúvidas sobre a validade ou não de pegar o caso.

    Regras do Jogo tem um início arrebatador. Aos 60 anos, o veterano William Friedkin prova que continua mantendo a mesma habilidade para dirigir cenas de ação, o que ele já havia demonstrado num de seus filmes mais famosos: Operação França, de 1971. A câmera é nervosa, a montagem é frenética, e o ritmo gruda o espectador na poltrona. Passadas as cenas de combate, porém, Regras do Jogo se transforma no chamado “filme de tribunal”. E seu ritmo cai vertiginosamente. Toda a emoção do início cede espaço a um falatório cansativo que não consegue provocar empatia junto ao público.

    Tudo isso, cinematograficamente falando. Há uma outra análise, porém, que também deve ser feita: a político-social. Neste sentido, Regras do Jogo é uma propaganda armamentista que recorre ao racismo para tentar vender a idéia de que os EUA são, sim, os guardiães do planeta. E que é necessário que o país esteja sempre armado até os dentes, custe o que custar. Típico panfletarismo bélico que os norte-americanos são experts em realizar, através do cinema, desde a Primeira Guerra Mundial.

    Na visão do filme, todo árabe é um fanático em potencial, capaz de carregar armamento pesado debaixo de suas túnicas, e colocar crianças e mulheres na linha de fogo, somente para combater o imperialismo ianque. Ainda na visão do filme, empreender uma carnificina contra este povo é – óbvio! - totalmente justificável.
    Não é à toa que os árabes protestaram contra a exibição de Regras do Jogo. O filme é, sim, preconceituoso contra a comunidade. A história escrita por James Webb (de fato um oficial dos Fuzileiros Americanos) tem, sim, caráter fascista, o que torna o filme “heróico” para os padrões americanos e duro de engolir pelos critérios brasileiros.

    Regras do Jogo pode ser fascista e preconceituoso. O que é sempre execrável, mas nunca surpreendente. Afinal, o racismo, o preconceito e o patriotismo bobo sempre fizeram parte das regras do jogo do cinemão militar americano.

    04 de setembro de 2000
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    Celso Sabadin é jornalista especializado em cinema desde 1980. Atualmente é crítico da Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, e do Canal 21.