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    RENOIR

    Produção mostra últimos anos de vida do pintor francês
    Por Roberto Guerra
    09/07/2013

    Certa feita disse Albert Einstein: "Nem tudo que pode ser contado, conta. E nem tudo que conta pode ser contado." A frase me veio à cabeça ao assistir a esse drama francês sobre os últimos anos de vida do pintor Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). A obra do impressionista francês hoje é tangível, tem valor de mercado. Sabe-se que um quadro seu vale milhares, talvez milhões de dólares. Mas e o intangível? Aquilo que não dá para ser contabilizado, a verdadeira experiência da arte?

    Renoir, o filme, tem o mérito de resgatar o impalpável da atividade e apreciação artística no retrato que faz do pintor e de sua última musa. Viajamos a 1915 e encontramos Renoir (Michel Bouquet) aos 74 anos, com dificuldades para trabalhar e mesmo se locomover graças a uma severa artrite que o tortura. Ainda que debilitado, inspira-se a pintar nova série de nus artísticos depois da chegada da aspirante à atriz Dedee (Christa Theret).

    A presença da moça de jeito blasé e pele alva provoca uma espécie de agitação repentina na rotina da mansão campestre do pintor, tanto entre as empregadas domésticas (muitas delas ex-musas de Renoir) como entre seus filhos: Coco Renoir (Thomas Doret), o mais novo e arredio, e o jovem Jean Renoir (Vincent Rottiers), que volta para casa ferido de guerra e se deixa levar pelos encantos inebriantes da inspiração despida do pai.

    Michel Bouquet encarna com perfeição o pintor e sua paixão pela arte, particularmente quando este discorre sobre o processo artístico de criação. O intangível da arte, o olhar do artista, a beleza que emana do objeto a ser retratado. Tudo aquilo que faz alguns poucos ainda hoje ficarem inertes por minutos a fio diante de uma tela. Essa coisa que não pode ser contabilizada, mas conta, e muito, com bem disse Einstein.

    Christa Theret, por sua vez, faz de Dedee uma musa também para a câmera do diretor e roteirista Gilles Bourdos. Exuberante com seus cabelos vermelhos, pele alva e uma impressionante presença cênica. Renoir se encanta com sua formosura e o espectador também, o que o leva a compartilhar do entusiasmo artístico do pintor e entender sua inspiração repentina.

    A química que funciona perfeitamente entre Bouquet e Theret, no entanto, é falha entre ela e Rottiers. Num filme convincente sob muitos aspectos, a paixão do casal não instiga e parece desprovida da força que o filme propõe. Isso fica ainda mais evidente na segunda metade do longa, quando o foco muda do pintor para o filho, sua relação com o pai e a paixão por Dedee, que o inspirou a virar o cineasta consagrado de anos mais tarde.

    Renoir também traz um problema evidente de má exploração dos conflitos propostos, o que gera certa frustração. A trama flerta com a rivalidade sexual, inveja entre pai e filho, antigas e nova musa, para em seguida deixar de aproveitar os enfretamentos sugeridos. O principal exemplo é do personagem Coco, o filho pré-adolescente que sofre com a evidente falta de atenção do pai, mas que depois é deixado de lado na trama.

    Mesmo com esse problema de subaproveitamento do enredo, Renoir é um filme que merece ser visto pelas boas interpretações, reconstituição de época impecável e fotografia feérica. Tem-se a impressão ao longo da projeção de se estar inserido numa pintura. Aquela sensação nada tangível de contemplar a arte e tirar dela impressões próprias, assim como fez Renoir, assim como faz o bom cinema.