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    REPARE BEM

    Documentário retrata três gerações vítimas da ditadura militar
    Por Roberto Guerra
    19/08/2013

    O título cabe como luva a este documentário. Não só pela importância do tema abordado, merecedor de olhar sempre alerta, mas também pelo próprio exercício de documentar, que exige do realizador atentar para minúcias e detalhes que fazem a diferença num filme do gênero. E a atriz e diretora portuguesa Maria de Medeiros repara bem, filma bem, e mostra sensibilidade e domínio técnico neste filme sobre três gerações vitimadas pela ditadura militar brasileira.

    O longa é centrado principalmente nos depoimentos de Denise Crispim, antiga companheira de Eduardo Collen Leite, o guerrilheiro de extrema-esquerda conhecido por Bacuri, torturado e morto brutalmente pelos militares em 1970. Ela conta em detalhes como se conheceram, a gravidez inesperada, a perseguição e a fuga para o exílio com a filha Eduarda, que hoje vive na Holanda e também relata a difícil infância e suas impressões sobre o pai que não chegou a conhecer. A produção resgata ainda a memória de Encarnação, mãe de Denise, por meio de testemunhos, cartas e fotos.

    Inteligentemente, Maria de Medeiros trilhou o caminho pessoal e emotivo dessas mulheres para chegar aos fatos históricos. E o fez com competência insuspeita. Repare Bem é um filme que vai se construindo aos poucos, por imagens e palavras ditas – não há em nenhum momento letreiros explicando ou contextualizando nada – e ainda assim tudo é entendido com perfeição ao final da projeção, num trabalho harmônico que merece elogios também pela montagem redonda.

    Repare Bem é carregado de momentos pungentes, que dão dimensão humana a fatos históricos e fazem com que nomes escritos em páginas de livros de História ganhem vida diante do espectador. Numa das passagens marcantes do filme, Denise conta sobre a única visita que fez ao companheiro durante os 109 dias em que ficou em poder dos órgãos de repressão.

    A narrativa emocionada, rica em pormenores, faz a cena vir à cabeça e a angustia ao peito. Levada à presença do delegado Sérgio Paranhos Fleury, algoz de seu marido e de muitos outros militantes na época, este lhe dá cinco minutos para falar com Bacuri, que se recusa a cooperar com os policias enquanto não tiver certeza que Denise e a filha estão bem.

    Ela é levada a uma sala onde ele a aguarda, debilitado, sentado por trás de uma mesa que esconde a parte posterior de seu corpo - deliberadamente ocultada para esconder os ferimentos das longas sessões de tortura a que foi submetido. Trocam as palavras possíveis no breve espaço de tempo. Ao final, Bacuri pede para tocar a barriga da mulher antes dela ir embora. Fleury nega.

    O guerrilheiro, um dos responsáveis por orquestrar o sequestro do cônsul japonês Nobuo Okushi e do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, morre sem conhecer a filha, com a cabeça arrebentada numa pia, orelhas decepadas, sem poder andar e com cortes profundos pelo corpo. Em dado momento do filme, Eduarda, hoje uma terna mulher que guarda de recordação do pai apenas fotos e uma camisa, diz: "Uma ditadura é sempre ruim, é sempre um mal".

    Parece óbvio, mas é preciso que vítimas de regimes de exceção - sejam de direita ou esquerda, não importa o lugar do mundo - repitam isso como um mantra, para que realidades como essa não se repitam, para que as pessoas não fechem os olhos e reparem bem.