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    RESSURREIÇÃO

    Filme tenta, mas não consegue ir além da história bíblica
    Por Daniel Reininger
    16/03/2016

    Ressurreição é mais um épico bíblico que chega aos cinemas para arrebatar espectadores cristãos perto da Páscoa. A diferença é que o longa faz uma releitura moderna sobre a história do retorno de Jesus e mostra um tribuno romano (Joseph Fiennes) investigando o desaparecimento do corpo de Cristo de sua tumba e proporciona uma visão interessante da vida dos apóstolos pós-crucificação.

    Ok, talvez chamar de interessante seja um adjetivo muito forte para o longa, que não procura inovar de nenhuma outra forma além do foco narrativo. A história está lá como a maioria conhece, sem grandes mudanças ou pontos polêmicos que poderiam render uma discussão produtiva, o que muda é o foco.

    Graças à sua perspectiva incomum, o diretor Kevin Reynolds (Robin Hood, O Príncipe Dos Ladrões) cria um longa com tom mais leve do que a maioria dos épicos bíblicos de Hollywood e conta uma lenta história de despertar espiritual. É o primeiro filme do diretor em uma década e ele mostra que ainda sabe fazer um longa de época muito bem. Ainda assim, o tom religioso toma conta e é impossível esquecer que estamos vendo um filme voltado para a Páscoa.

    Fora a boa ambientação, o longa não se destaca tecnicamente, a trilha sonora exagerada procura inspirar o público, a fotografia é bem clara e sem contrastes, com eventuais cenas contra a lua ou contra o sol para máximo efeito dramático, mas que, fora isso, parece deixar tudo às claras para mostrar que não existem pontos obscuros naquela história. Além disso, as cenas de ação se mostram preguiçosas, incapazes de proporcionar emoção ou diversão, e o CGI também não é dos melhores que você vai ver no cinema este ano.

    Na verdade, os problemas aparecem também no roteiro. É um pouco decepcionante ver os apóstolos como seres tão inocentes, seria melhor vê-los ser como seres reais, com profundidade e de forma realista, afinal, esses homens se tornam os pilares de uma das instituições mais poderosas da humanidade e deveriam agir como tal.

    Seria interessante vê-los tomar decisões difíceis, já que são caçados pelo Império Romano e precisariam de muita inteligência para sair de situações extremas. Só que, na realidade, agem como seres escolhidos pelo divino que contam com a sorte para escapar de seus perseguidores, embora tomem atitudes inexplicáveis, como se reunir com Jesus ressuscitado dentro de Jerusalém e a olhos vistos, mesmo enquanto são perseguidos.

    Nesse ponto, apenas o personagem de Joseph Fiennes transmite algum realismo e passa por algum crescimento, até por ser um dos únicos atores que parece realmente compromissado a entregar boas atuações na obra.

    Só que diálogos rasos são outro problema, a maioria dos debates sobre Jesus se resumem à fé cega, sem questionamentos, sem teologia ou nada que possa ir além do esperado para um filme do tipo, muitas vezes a explicação se resume a "porque sim" ou "é a vontade Dele". O motivo é claro, evitar possíveis polêmicas, mas estamos falando de um filme, e aprofundamento dos personagens e situações é algo muito importante na sétima arte.

    Ressurreição flerta com a inovação, mas, na verdade, não consegue ir além do conto bíblico padrão. O filme possui diversas questões que pareciam apontar para algo mais interessante ou controverso, mas o medo de afastar o público mais tradicional faz da trama algo batido, que, muitas vezes, parece não saber qual caminho seguir e, consequentemente, atrapalham a obra. Dito isso, o longa é uma boa opção para quem não se cansa de ver essa história recontada, afinal, ao menos tenta mostrar um lado diferente dela.