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    RETRATOS DE FAMÍLIA

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Existem alguns temas que são simplesmente inesgotáveis para o cinema. A família é um deles. Filmes que retratam problemas familiares se constituem praticamente num subgênero dentro da cinematografia mundial. Talvez algum dia as locadoras façam uma prateleira só para eles. Exemplos? Festa de Família, Parente é Serpente, Acontece nas Melhores Famílias, Família Rodante... A lista é enorme. E, como diz o ditado, "família é tudo igual, só muda de endereço". Por isso mesmo, esse tipo de roteiro sempre acaba causando uma boa identificação junto ao público, que se vê, para o bem e para o mal, retratado diretamente na tela.

    Um dos exemplos mais recentes deste "subgênero" é Retratos de Família, produção independente norte-americana que rendeu a Amy Adams uma indicação ao Oscar de Atriz Coadjuvante. Nada no filme é exatamente uma novidade. Nem o tema - claro - nem o seu enfoque, mas mesmo assim trata-se de um trabalho envolvente e intrigante que merece ser conferido.

    Três grandes e conhecidas linhas de ação são exploradas em Retratos de Família: a incomunicabilidade, o tédio, e o conflito rural/ urbano. São vertentes que vêm à tona quando a sofisticada marchand Madeleine (Embeth Davidtz) e seu marido George (Alesssandro Nivola) viajam ao interior dos EUA para conhecer o trabalho de David Wark (Frank Hoyt Taylor), um estranho pintor local, meio fora de sintonia com o mundo real, e desconhecido do grande público. Interessante que David Wark eram os dois primeiros nomes do famoso cineasta D.W. Griffith, que, assim como o personagem deste filme, também era sulista e nutria uma predileção doentia por cenas de guerra, mas esta "viagem" não vem ao caso agora.

    Como o ateliê de David é próximo à casa onde George nasceu e foi criado, o casal decide passar uns dias ali. Afinal, George não aparece há três anos no lugar e sua família sequer conhece Madeleine. É neste sítio provinciano encravado em algum lugar do conservador sul dos EUA que o filme se desenrola. Entre espantada e curiosa, Madeleine toma contato com a estranha família do marido, composta pelo pai Eugene (Scott Wilson), a mãe Peg (Celia Weston), o irmão Johnny (Ben McKenzie) e a cunhada Ashley (Amy Adams), esposa de Johnny. Logo vem à cabeça o verso de Caetano Veloso: "de perto, ninguém é normal". E, neste caso, nem de longe.

    Os interioranos recebem Madeleine com o máximo de desconfiança. A mãe Peg vive pisando na idéia de que a nora mal conhece o próprio marido. Johnny se recusa a olhar nos olhos do irmão. E o pai Eugene opta pela omissão calada. Por outro lado, a cunhada Ashley é um poço irritantemente interminável de atenções e gentilezas. Comportando-se como uma pré-adolescente, ela elege Madeleine, em segundos, sua melhor amiga, companheira, modelo a ser seguido e confidente. Quer mais? Ashley, grávida de Johnny, está empolgada por um bebê que o próprio marido não quer ter. Está armado o circo de horrores.

    Como sempre acontece neste tipo de filme, velhas pendências que pareciam esquecidas emergem novamente como sujeira escondida sob o tapete familiar. O clima é de tensão permanente. Disfarçada debaixo de uma aura de falsa tranqüilidade caipira, existe um tédio sufocado por anos a fio que pode explodir a qualquer momento. São diferenças (talvez) irreconciliáveis filmadas com segurança e talento pelo diretor Phill Morrison, a partir do roteiro de Angus MacLachlan. Curiosamente, ambos são estreantes no cinema. Duas estréias das mais promissoras.