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    REVELAÇÕES

    Por Celso Sabadin
    22/05/2009

    Revelações é o filme que tinha tudo para dar certo: roteiro de Nicholas Meyer, o mesmo de Atração Fatal, O Informante e de um punhado de longas da série Jornada nas Estrelas. Na direção, o premiado Robert Benton, de Kramer x Kramer. Assinam a produção Bob e Harvey Weinstein, os magos da Miramax. E como se não bastasse, o elenco traz os monstros Nicole Kidman e Anthony Hopkins. Isso sem falar de Ed Harris e Gary Sinise. Faturamento nas bilheterias? Míseros US$ 5 milhões, contabilizados depois de um lançamento tímido em apenas 160 cinemas nos EUA. O que não deu certo? Na verdade, a pergunta não deveria ser esta, porque o filme deu certo, sim. Deu certo nos quesitos talento, emoção, sensibilidade e qualidade artística. O grande problema é que Hollywood impôs à mídia mundial um novo termômetro para se medir a qualidade de um filme: dólares. Repare. Jornais, revistas, TV, sites... atualmente todos eles analisam uma obra cinematográfica em função dos dólares que ela arrecadou ou não nas bilheterias dos Estados Unidos. Sim, dos Estados Unidos, aquele mesmo país que votou em George W. Bush e - pior - tende a votar novamente. Que base é esta? Que critério é este? Já está se formando toda uma geração de leitores, ouvintes e internautas que pautam seu lazer de final de semana não mais em função de um bom ator, de um bom diretor ou de um bom filme, mas sim de um bom faturamento. Filme bom é o que bate a casa dos US$ 100 milhões. É o auge do consumismo. Ou não? Ou mais virá?

    Elocubrações globalizantes de lado, o fato é que Revelações é um belíssimo filme. Conforme diz o próprio roteiro, a ação se situa no curto espaço de tempo que separa a queda da União Soviética dos atentados de 11 setembro. Um momento em que a maior preocupação do ocidente parecia ser o sexo oral entre Monica Lewinski e Bill Clinton. E onde o maior crime possível parecia ser o de fumar num restaurante. É neste cenário que o prestigiado professor Coleman (Anthony Hopkins) é acusado de racismo por ter utilizado uma palavra de duplo sentido durante uma de suas aulas. Sua vida regrada e pacífica desaba em questão de horas. Revoltado, ele procura a ajuda do escritor recluso Nathan (Gary Sinise, de Forrest Gump) para lhe narrar a história daquilo que poderia render um excelente livro. Rapidamente, a amizade que nasce entre Coleman e Nathan se torna maior e mais forte que qualquer livro que ambos poderiam escrever juntos. E o espectador é convidado, pela eficiente direção de Benton, a conhecer os fascinantes momentos passados vividos por estes dois ótimos personagens, e por outros que ainda serão incorporados à trama.

    Por incrível que pareça, o título brasileiro é bom. Revelações não faltarão no transcorrer da narrativa. E todas elas estampadas na tela de forma sóbria e segura, sem firulas modernosas, sem apelações visuais fáceis. O conteúdo que traz cada uma destas revelações é forte o suficiente para impactar a platéia, sem necessidade de pirotecnias cinematográficas.

    No fundo, estamos vendo uma gigantesca crítica contra a moda do "politicamente correto" (duas palavras por si só já incongruentes, segundo Coleman) que assolou os Estados Unidos. Um libelo contra o preconceito. Repare: cada um dos personagens teve sua vida desarrumada por conta do preconceito, da hipocrisia de uma ideologia barata, do Vietnã, do racismo ou do alcoolismo. Das doenças sociais. Isso pode explicar o fracasso das bilheterias. E o sucesso de um grande filme.