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    REZA A LENDA

    Mad Max brasileiro falha em quase todos os aspectos
    Por Daniel Reininger
    18/01/2016

    É bom ver o cinema brasileiro procurando diversificar os gêneros produzidos a fim de ir além das habituais comédias e dramas. Com isso, temos visto bons filmes de ação, como 2 Coelhos, e suspenses, como O Lobo Atrás Da Porta, mesmo que ainda incapazes de fugir totalmente das fórmulas hollywoodianas.

    Por isso, quando veio o anúncio de Reza A Lenda, longa-metragem claramente inspirado em Mad Max que marca a estreia de Homero Olivetto na direção, a torcida pelo sucesso era grande. Infelizmente, o longa falha em quase todos os aspectos e entra facilmente para a lista dos fracassos nacionais e possivelmente para a lista de piores do ano (isso que o ano mal começou).

    Repleto de referências à cultura pop, Reza A Lenda tem visual interessante ao utilizar o sertão como pano de fundo para uma história ambientada em um nordeste fantasioso. O ambiente inóspito, porém belo, e a gangue de motoqueiros liderada por Ara (Cauã Reymond) poderiam facilmente fazer parte das obras de George Miller (Mad Max: Estrada Da Fúria) e, por isso, o trailer ainda deixa algumas esperanças vivas de que, apesar da falta de inovação, podemos ter algo, ao menos, divertido.

    Ledo engano. O roteiro é raso, os personagens mal construídos e o peso da religiosidade na trama é bem incômodo, afinal é a forma fácil de tentar explicar as motivações dos protagonistas, por mais estranhas que pareçam. A história acompanha uma jovem (Luisa Arraes) que precisa viver contra sua vontade com a gangue de Ara após um acidente, paralelamente, o motoqueiro é caçado pelo vilão Tenório (Humberto Martins) pelo roubo da estátua de uma santa que pode fazer chover se for levada ao santuário correto.

    Embora ninguém convença realmente, a personagem com maior potencial é Severina, vivida por Sophie Charlotte (Serra Pelada) em um papel bem diferente do que estamos acostumados. Apesar de masculinizada, é aparentemente uma mulher forte que bate de frente com os homens desse mundo machista. Entretanto, a trama estraga tudo ao transformá-la em uma mulher ciumenta em disputa pelo amor de Ara.

    O trio amoroso já soa forçado naturalmente, mas quando se torna a questão central da personagem de Sophie essa subtrama beira o patético. E pior, vai contra a imagem forte que o cinema tem tentado construir para as mulheres no gênero ação, que tem Furiosa (Charlize Theron em Mad Max: Estrada Da Fúria) como grande exemplo.

    Ao menos, visualmente Reza a Lenda é bem feito, com bela fotografia e sequências típicas de vídeos publicitários, não à toa, afinal o diretor é filho de Washington Olivetto. Além disso, o longa possui alguns efeitos especiais de boa qualidade, como na cena com a minigun.

    Rapidamente Reza a Lenda acaba se tornando uma obra cansativa, chata mesmo, além de sem coerência e de discurso raso. A trilha sonora parece aleatória e, quando não irrita, é bastante esquecível. O mais triste mesmo é ver um grande elenco desperdiçado com personagens caricatos e diálogos inacreditavelmente clichês e enfadonhos. Como consequência, a atuação é burocrática e evidencia a falta de uma direção mais cuidadosa.

    Como esperado em um filme ambientado no sertão brasileiro, a crítica social também está presente, o problema é que ela é abordada de forma dispersa. Ficamos sem ter certeza de quais são as verdadeiras críticas do diretor, o qual também não as soube explicar com clareza durante a coletiva de imprensa do filme. Resta esperar que essa obra sirva de aprendizado para Homero Olivetto e permita que, no futuro, ele consiga entregar obras que façam jus a ideias promissoras. Pena que não foi dessa vez.