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    ROMA

    Por Pedro Venturini
    05/02/2019

    Um azulejo molhado que reflete o céu onde podemos ver lentamente um avião passando. É assim a abertura de Roma, novo filme de Alfonso Cuarón que garantiu dez indicações ao Oscar 2019. O longa marca o retorno do diretor mexicano desde que levou a estatueta de melhor filme em 2014 com o sufocante Gravidade.

    Em seu recenter trabalho, Cuarón optou por um início lento, levando o espectador a conhecer a rotina da empregada doméstica Cleo, interpretada pela estreante Yalitza Aparicio, e os conflitos da casa onde trabalha. O médico Antônio (Fernando Grediaga) inicia um processo de separação da esposa Sofia (Marina De Tavira), e isso passa a afetar a vida de todos, incluindo os filhos do casal, Cleo e sua amiga Adela (Nancy García).

    Além de trazer a rotina de trabalho da empregada, em que faz tarefas corriqueiras como lavar o chão do quintal e cuidar das crianças, Roma também aprofunda a vida pessoal de Cleo, mostrando a divisão de um quarto minúsculo com Adela nos fundos da casa do casal, suas idas ao cinema buscando diversão e se envolvendo com Fermín (Jorge Antonio Guerrero).  

    Ao apresentar um recorte da vida de Cleo, o diretor insere uma abordagem sobre o cenário político e cultural do México dos anos 70. O título Roma se refere ao bairro onde a família vive, localizado em uma área nobre da capital mexicana, e apresenta o contraste da economia do país comparando o local com outras regiões mais afastadas e bem menos privilegiadas, por exemplo, o bairro onde vive Fermín. A produção também mostra as revoltas sociais que aconteceram no México no início da década, e esse retrato conectado à vida de Cleo reforça a ideia de que o indivíduo está fixado a um contexto social e cultural.

    Além de comandar o longa, Cuarón também assumiu o cargo de diretor de fotografia, algo comum em suas produções. Ele utiliza técnicas de câmera mais lentas e distantes para dar a impressão de que há alguém observando tudo o que acontece na vida da protagonista. Isso traz o público para dentro da tela e dá profundidade na experiência de vivenciar a rotina daquelas pessoas. A técnica de enquadramento ajuda a reforçar o intuito do longa de abordar acontecimentos de um modo pessoal e de uma perspectiva que parte do individual para um contexto maior e mais abrangente.

    Com o decorrer do tempo, percebemos como esse contexto exterior é em grande parte responsável pelos fatos que levam ao desfecho da história de Cleo. A personagem passa boa parte do longa quieta, como se observasse aquilo que acontece com ela e com os outros ao seu redor. Neste ponto, a atuação de Aparicio é impecável para atingir a gravidade necessária ao tom inserido no filme. Sua estreia dedicada lhe rendeu uma indicação à categoria de Melhor Atriz.

    Roma se encerra com uma cena que repete o inicio do filme – o reflexo no chão dessa vez mostra um avião indo na direção oposta - e assim como em outras cenas, o longa busca um efeito de transição. A abordagem da vida dos personagens nos mostra os efeitos das marcas deixadas pelo tempo. E essa proposta que parece tão simples, é o que torna a produção tão fascinante. Roma é o retrato da vida das pessoas em seu próprio tempo.