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    SAINT LAURENT

    Filme preza pela beleza estética e não força polêmicas
    Por Júlia Fernandes
    12/11/2014

    Yves Saint Laurent, um dos maiores estilistas do mundo, cuja vida fechada e tão comentada poderia facilmente ser traduzida em um filme dramático exagerado de polêmicas, ganha um tom totalmente artístico e profundo nas mãos do diretor Bertrand Bonello.

    Saint Laurent retrata a vida do artista entre 1967 e 1976, época cuidadosamente escolhida por ser o auge da sua carreira e ao mesmo tempo um período bem conturbado na história, de mudanças no mundo da moda, na política e nas relações sociais. Contudo, o drama não busca a linearidade dos anos, mas faz transições entre os tempos e faz com que tudo esteja de alguma forma interligado, seja as cores da coleção ou revolução política.

    Gaspard Ulliel dá a vida ao estilista e não tem a mínima dificuldade em personificar seu caráter enigmático, reservado e quase andrógeno. Sempre ao seu lado está Pierre Bergé, seu companheiro e o criador da marca YSL, interpretado por Jérémie Renier, que acaba mostrando o lado mais comercial do negócio, prezando pela valorização do homem e o conceito por trás da marca. Aos poucos também são apresentados, superficialmente, os outros personagens de sua vida, como a modelo Betty Catroux (Aymeline Valade), Loulou de la Falaise (Léa Seydoux) e um dos seus maiores amantes, Jacques de Bascher (Louis Garrel).

    Com Jacques, Yves desenvolve um dos relacionamentos mais complexos da trama, mas mesmo quando o amor fica literalmente claro entre os dois, ainda não é possível estabelecer uma conexão ou sensibilidade com o personagem. Em nenhum momento o longa tenta forçar sentimentos, mas mantém uma distância, retratando o apenas a lenda, e não a alma por trás dela. As cenas de nudez ou abuso de drogas não estão lá para chocar ou mostrar a decadência da estrela, mas simplesmente porque essas eram coisas comuns em sua vida.

    Em meio a todo o caos da vida pessoal, o designer enfrenta ainda as dificuldades de encontrar a criatividade, temporada após temporada, lutando para se reinventar sem perder a grandiosidade, em um cenário de transformações econômicas. E isso acaba sendo uma válvula de escape, o lugar onde ele pode se expressar e descarregar todas as suas crises existenciais.

    Tudo é construído para prezar a beleza estética, com fotografia e produção que enchem os olhos. Ao mesmo tempo, é também fragmentado, com alternância entre cenas longuíssimas e, às vezes, até desconfortáveis, e outras curtas. Ora a música está alta dentro da boate colorida, ora é cortada repentinamente para um jardim silencioso e escuro. Adicionado a isso algumas passagens totalmente subjetivas e subliminares, o objetivo é, portanto, fazer o espectador se perder em seu mundo, sem tentar entendê-lo.

    Bonello entrega um filme difícil de compreender e digerir, que compele a pensar e não a se sensibilizar com a história deste grande nome da moda. Com caráter intelectual e artístico, Saint Laurent se separa do formato de cinebiografias atuais e vai propor uma experiência mais complexa, que pode não ser o favorito do grande público, mas traz inovação e fidelidade ao estilo do diretor.