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    SEGREDOS DE SANGUE

    Diretor de Oldboy cria obra elegante e incômoda
    Por Daniel Reininger
    10/06/2013

    Com forte inspiração no clássico de Hitchcock A Sombra de Uma Dúvida, o primeiro filme norte-americano de Park Chan-wook (OldBoy), Segredos De Sangue, é muito mais convencional do que foi a trilogia da vingança. Ainda assim, é um thriller incomodo sobre família e assassinato, com o toque especial do cineasta coreano.

    Na trama, India Stoker (Mia Wasikowska) é uma garota estranha que precisa lidar com a morte de seu pai no dia de seu 18º aniversário. No funeral, conhece seu misterioso tio Charlie (Matthew Goode), que acaba de retornar da Europa após décadas. Ele decide morar com a garota e sua mãe alcoólatra (Nicole Kidman), mas algo além de amizade começa a surgir entre o homem e a viúva. Ao mesmo tempo, a garota enfrenta olhares inquietantes do tio.

    O elenco afiado é crucial para o sucesso da obra. Kidman se entrega ao papel de mãe passivo-agressiva, ressentida com a vida e vê em Charlie a chance de recomeçar. Entretanto, o filme é de Wasikowska, ótima no papel da fria India, mistura de Alice (Alice no País Das Maravilhas) e Vandinha da Família Addams. Ela vê detalhes do mundo a sua volta escondidos para as pessoas, com exceção de seu tio, e isso a coloca num inquietante estado de estupor.

    Sua atitude combina com os impecáveis figurinos e cenários góticos, que proporcionam uma situação de anacronismo, apesar da trama se desenrolar nos dias atuais. A designer Therese De Prez fez ótimo trabalhar ao criar a casa da família Stoker, local estranho com detalhes arquitetônicos angulares e distorcidos - visual semelhante às primeiras obras de Tim Burton.

    No começo, Segredos de Sangue é lento e os personagens interagem com cautela, como se temessem uns aos outros enquanto tentam desvendar o que está acontecendo. Na segunda metade, as coisas começam a esquentar. O estopim é a visita de uma tia distante, com intenção de averiguar a situação de India, mas que se intromete na vida da família. Em contraste com o primeiro ato, o desfecho se desenrola de forma rápida demais e isso causa um descompasso na narrativa.

    O roteiro, escrito pelo ator Wentworth Miller, da série Prison Break, poderia também se aprofundar em questões psicológicas dos protagonistas e evitar clichês que entregam o final muito cedo. Esses problemas podem ser explicados pelas desavenças de Park com o estúdio, que não deu liberdade ao cineasta.

    Apesar disso, a câmera atenta aos detalhes e os efeitos sonoros propositadamente amplificados contribuem para o aumento da tensão. A luz e a sombra são elementos importantes e usados de forma dramática, tanto para esconder emoções, quanto para revelá-las. A principal cena erótica do filme, um dueto de piano entre tio e sobrinha, é o ápice das técnicas utilizadas por Park.

    O filme agrada, mas até que ponto Segredos de Sangue iria se o cineasta tivesse liberdade para explorar aspectos mais sombrios? A resposta para essa pergunta pode estar na filmografia do coreano, cujos elementos poderiam estar ainda mais presentes nesta obra. Mesmo assim, Park cria uma instigante visão da cultura norte-americana em um suspense que procura se distanciar do "mais do mesmo".