cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    SELMA

    Ufanismo prejudica importante resgate histórico
    Por Gustavo Assumpção
    03/02/2015

    A tragédia que incendiou a cidade de Ferguson, no estado norte-americano do Missouri em novembro do ano passado, reacendeu o debate sobre o racismo e a repressão policial no sul dos Estados Unidos. Talvez por isso Selma, indicado ao Oscar de melhor filme, esteja repercutindo tão positivamente: ao resgatar o período de luta por direitos civis encabeçado por Martin Luther King, o filme dialoga diretamente com a atualidade.

    Selma se debruça sobre um recorte bem feito da trajetória do líder. Começa com a consagração, quando Luther King recebe o Prêmio Nobel da Paz pela sua campanha pacífica contra a segregação racial. Retornando ao país, King vê uma nova luta em seu horizonte: a busca por direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana. É a cidade de Selma, no estado do Alabama, que vai receber marchas pacíficas organizadas pelo líder em busca desse ideal.

    O filme traça bem esse retrato, mostrando a influência da religião em Luther King, sua relação controversa com o então presidente Lyndon Johnson e, principalmente, sua capacidade para usar a mídia ao seu favor. É bem verdade que alguns historiadores estão convencidos de que o filme exagera nesses retratos - um recurso para incentivar o maniqueísmo que Hollywood tanto preserva.

    Em seu terceiro filme, Ava DuVernay realizou um trabalho apaixonado, claramente tentando aumentar o impacto de sua mensagem. Assim como em 12 Anos De Escravidão, a violência retratada em Selma é aterrorizante, brutal. Em uma das sequências mais terríveis, a primeira tentativa de marcha é reprimida pela força policial do Alabama, episódio que ficou conhecido como Bloody Sunday e até hoje é uma ferida aberta na disputa racial que, a atualidade escancara, ainda existe em algumas regiões do país.

    Mas, há um certo didatismo do qual a diretora não conseguiu escapar. Mesmo ao retratar o líder frustrado pelas divergências com parceiros ou perdido em meio aos rumores espalhados pelo FBI que o acusavam de comunismo e desvio de verbas e as fofocas sobre suas possíveis escapadas extraconjugais, o longa exagera nos diálogos explicativos e pouco precisos. 

    O tom exagerado de algumas sequências mostra que há um objetivo claro em Selma: reascender a luta pela igualdade racial. Para isso o filme cede ao sentimentalismo de maneira exagerada e contestável e recorre aos discursos cristãos e cheios de paixão de Luther King.  DuVernay reescreveu muitos desses discursos em uma tentativa de construir uma mensagem inflamada e otimista, como se ainda acreditasse na humanidade em confronto direto com a barbárie. A mensagem de Selma é necessária enquanto ponto de partida, mas não é um fim em si mesma.