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    SEM AMOR

    Por Daniel Reininger
    05/02/2018

    O drama Sem Amor, obra de Andrey Zvyagintsev, de Leviatã, diretor conhecido por criar situações dramáticas intensas, volta a escancarar questões negativas da sociedade russa moderna. O longa indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro tem uma intensidade hipnótica e uma ambigüidade angustiante. O longa mostra como o povo do país está à mercê de forças implacáveis num mundo sem empatia.

    A trama acompanha uma família de classe média à beira do fim. Como Leviatã, Sem Amor usa relacionamentos conturbados como metáfora para como as pessoas se distanciam uma das outras num mundo hiper conectado, além de mostrar a incompetência da polícia e dos órgãos públicos, o exagero de burocracia, a falta de empatia social e como o comportamento abusivo é sistemático.

    Em meio à separação do casal principal, a dúvida é o que será feito com o filho de 12 anos. Logo de cara, a cena mais pesada entrega uma discussão repleta de frieza e desinteresse pelo bem-estar do menino, que ouve, desesperado, à discussão escondido no banheiro. É um momento forte e de cortar o coração.

    O que pareceria ser um drama sobre a decisão do futuro do menino, se torna uma busca desesperada quando o garoto não volta para casa um dia após a escola. O longa usa essa situação para explorar ainda mais os temas principais da obra e mostrar como os pais e filhos não se conhecem. Como resultado, aprofunda a sensação de indiferença e falta de empatia daquela sociedade preocupada em manter a aparência, mas sem realmente demonstrar esse sentimento pelo próximo.

    O longa usa a neve e constantes diálogos sobre as baixas temperaturas como metáfora para a frieza da sociedade. A discussão é relevante, mas a narrativa se perde um pouco ao alongar demais a busca pelo garoto, com cenas visualmente inspiradas, de fotografia cuidadosa, mas com pouco conteúdo realmente. Com isso, a trama se torna arrastada e mais agilidade na montagem ajudaria a causar ainda mais impacto.

    A trilha sombria, cenários desolados, como de um centro esportivo abandonado, e paisagens frias ajudam a reforçar a situação social decadente e criam uma visão, ao mesmo tempo, bela, assustadora e cheia de simbolismos. A falta de esperança toma conta da narrativa e isso é reforçado, especialmente, com noticiários caóticos e cenas sobre personagens aparentemente irrelevantes, mas cujas atitudes dizem muito e reforçam o tema.

    O longa possui ainda grandes atuações e uma qualidade técnica impecável. Além disso, a trama constrói tensão emocional o suficiente para sustentar um clímax intenso, na qual a reação dos personagens torna esse momento catártico. As cenas seguintes, porém, mostram o quão perturbados aqueles personagens são ao retornarem a velhos hábitos, passado o momento de emoção intensa.

    Sem Amor é um filme pesado e cheio de alegorias para abordar problemas centrais na sociedade russa, mas possui elementos que podem ser reconhecidos por praticamente qualquer sociedade ocidental também. Como representante russo ao Oscar, é um dos fortes concorrentes ao maior prêmio do cinema de forma justa.