cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    SENTIMENTO DE CULPA

    Dama do cinema independente americano, Catherine Keener brilha como mulher de meia idade<br />
    Por Heitor Augusto
    28/10/2010

    Tela preta. Sobe um folk moderninho. Primeiras imagens na tela mostram um consultório e muitas mulheres com seios diversos – alguns bonitos, outros destruídos pelo tempo – ajeitando-os para mamografia. A música continua, com uma curiosa letra que diz algo como “eu reclamava da vida até conhecer uma pessoa que não tinha bumbum”. Esse comecinho já dá uma boa ideia do tom cômico dramático que domina Sentimento de Culpa.

    Trata-se de um filme sincero para o espectador: já no início deixa claro que a comédia vai servir apenas de gancho para se aproximar de coisas mais sérias, questões que atingem a todos nós, e se integrar na safra da produção contemporânea do cinema americano independente. Vejamos, para facilitar a descrição, há um pouco de Juno e outro tanto de Eu, Você e Todos Nós.

    Estamos em Nova York acompanhando uma família que vende móveis antigos a preço de ouro. Kate (Catherine Keener) comanda o comércio com o marido Alex (Olivier Platt) e tenta aprender a viver com sua filha adolescente Abby (Sarah Steele). No apartamento que moram, há uma vizinha de 90 anos, Andra (Ann Morgan Guilbert), constantemente visitada pela neta Rebecca (Rebecca Hall) e às vezes lembrada pela outra neta, Mary (Amanda Peet).

    Sentimento de Culpa chega a pontos cruciais da existência tanto de seus personagens quanto do espectador. Não se trata de uma jornada de descobrimento deles, que começam equilibrados e se descobrem desequilibrados ao longo do filme. Pior: eles já são conscientes de todos os porquês mal resolvidos, o longa apenas os obriga a ter de lidar com eles e procurar respostas.

    Nessa hora, Sentimento de Culpa deixa o registro cômico e chega ao dramático, sem errar na transição. O marido enxerga o casamento de outra maneira, a mulher questiona seu altruísmo, a filha mergulha na adolescência, uma vizinha olha para suas próprias dores, a outra tem de lidar com o passado, a morte torna-se um tema tragicômico que atinge a todos.

    Assim como nós, seres humanos mortais, que olhamos para o filme pensando: o que fazemos com as mesmas questões quando elas chegam às nossas vidas? Cada um que dê sua resposta, pois Sentimento de Culpa encontra alguma delas para seus personagens.

    Especialmente Kate, a protagonista, e Mary, sua antagonista. Esta é interessante por causa da riqueza da personagem. Já Kate domina o filme, não só pela personagem, mas também pela atriz que a interpreta. Todas as vezes em que é exigida, Catherine Keener leva o filme nas costas. Tão onipresente em dramas independentes quanto Paul Giamatti, Catherine, ela nunca deixa o filme cair, jamais erra o tom ou exagera para nos conquistar. Catherine é como uma camisa 10 de um time de futebol: é só passar a bola para ela que tudo está resolvido.

    Sua personagem é a justificativa para que o título original Please Give tenha sido adaptado para Sentimento de Culpa. E haja culpa! O filme não é tão afeito aos “estranhos” como Eu, Você e Todos Nós, mas é feliz ao trazer um olhar parecido com o de Miranda July. Estranho é quem não sente e não se percebe.