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    SETENTA

    Bem construído, doc. humaniza personagens dos anos de chumbo
    Por Roberto Guerra
    24/05/2014

    Fonte inegável de informação, livros acadêmicos sofrem da dificuldade em humanizar personagens. Documentários como Setenta, por outro lado, podem não se aprofundar muito em meandros históricos, mas certamente compensam a superficialidade inevitável com a força das imagens. Nomes viram gente de carne e osso e estes contam sua história, nossa história.

    Eles são 18 entrevistados do grupo de 70 combatentes da ditadura brasileira trocados pelo terceiro embaixador sequestrado no Rio de Janeiro, o suíço Giovanni Enrico Bucher, em 7 de dezembro de 1970. Presos políticos de diferentes organizações, são enviados ao Chile. Setenta os reencontra 40 anos depois e, por meio de depoimentos, faz um panorama da repressão e violência no Brasil da época.

    Dirigido por Emília Silveira, Setenta tem estrutura narrativa clássica intercalando depoimentos com fotos de arquivos pessoais, recortes de jornais e imagens de outros docs., como Dora: Quando Chegar O Momento, de Luiz Alberto Sans e Lars Safstron; Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton; Brazil: A Report on Torture, de Haskell Wexter e Saul Landau, entre outros. O conjunto, muito bem montado, ambienta o espectador na época dos acontecimentos e revela motivações, agruras e os ideias que moviam esses jovens.

    Após o golpe militar que derrubou Salvador Allende, parte dos exilados foge do Chile dominado por Pinochet e vão para a Europa, se refugiando em diferentes países, como Alemanha, Bélgica, Suécia e França. Entre estes estão Maria Auxiliadora Lara Barcelos (Dora) e Frei Tito, que abalados emocionalmente pela tortura sofrida no Brasil e sem suportar o exílio, suicidam-se em terras estrangeiras.

    Além de ajudar a contextualizar os acontecimentos da época, esses homens e mulheres que combateram a ditadura, sonhando com um mundo melhor, avaliam seus ideais e aspirações daqueles tempos sob o olhar maduro dos dias de hoje. Admitem certa ingenuidade e romantismo, mas também a necessidade de não ficarem passivos diante de um país privado de sua liberdade.

    Affonso e Mara Alvarenga, Marco Maranhão, Jean Marc Van der Weid, Elinor Brito, Nancy Mangabeira Unger, René de Carvalho, Reinaldo Guarany, Vera e Bruno Dauster, Wilson Barbosa, Ismael de Souza, entre outros, seriam apenas nomes disposto no papel, como o são aqui na tela. Em Setenta viram gente palpável, com sentimentos, emoções e contrariedades.

    Humanizando esses personagens, o bom documentário não só resgata um momento importante de nossa história, mas dá cara, voz e coração a ele. Um filme essencial para se entender aquele momento, principalmente para os que tiveram a sorte de não viver os chamados anos de chumbo.