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    SILÊNCIO

    Scorsese sai da zona de conforto, mas peca com ritmo truncado
    Por Iara Vasconcelos
    08/03/2017

    Um dos pilares do processo de colonização europeia foi a bem-sucedida doutrinação religiosa dos habitantes natais daquelas terras. Era comum que padres integrassem as tripulações para catequizar a população local e ensinar o modo ocidental de vida. Apesar do continente latino-americano ter sido o mais afetado por essa "colonização religiosa", continentes como a África, Oceania e a Ásia também integraram esse fenômeno.

    Em seu novo filme, Martin Scorsese consegue criticar a imposição dos valores eurocêntricos - tidos como corretos e superiores aos de outras culturas - ao mesmo tempo em que mostra a face da intolerância religiosa, que vitimou milhares de católicos no Japão. Como base, ele usa a obra original de Shusaku Endo, lançada em 1966 e considerada como um dos maiores romances do século XX.

    O regime feudal japonês executou cerca de 6 mil aldeões de forma sádica, adotando torturas como afogamento, banho de água fervendo e até crucificação. Aqueles presos pelo regime, sendo eles japoneses ou missionários portugueses e espanhóis, eram levados ao Inquisidor (Issei Ogata), que praticava um pequeno ritual para descobrir se os prisioneiros eram de fato cristãos: Pisar em um retrato de Jesus Cristo. A partir daí, era decidido se eles seriam condenados ou perdoados.

    Após o sumiço do padre português Ferreira (Liam Neeson), os jovens sacerdotes Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) viajam até o país asiático para tentar descobrir seu paradeiro, mas chegando lá encontram um ambiente hostil e extremamente perigoso. Mesmo com grandes recompensas por suas cabeças, os dois se arriscam viajando de vilarejo em vilarejo para rezar missas, fazer confissões e batizar os únicos católicos restantes na região, que vivem escondidos em lugares remotos.

    Com a caça aos católicos cada vez mais forte, eles decidem se separar para que as chances de serem pegos sejam menores. Depois de presenciar a morte de fiéis que se negaram a renunciar a Deus, Rodrigues fica cada vez mais indeciso quanto as suas escolhas. Até que uma traição o coloca cara a cara com o Inquisidor, que dá início a uma dolorosa tortura psicológica para provar ao padre que não há espaço para o catolicismo no Japão.

    O roteiro assinado por Scorsese e Jay Cocks traz discussões interessantes a respeito de choques culturais, supremacia europeia e até os limites da perversidade humana. Entretanto, o filme acaba sofrendo com um ritmo truncado. Com uma primeira parte dinâmica e cativante, mas que vai perdendo força do meio para o final.

    A fotografia assinada por Rodrigo Prieto traz uma mistura interessante de realismo e fantasia. Se, por um lado, o filme chama atenção pelo retrato preciso do Japão do século 17, a cena dos barcos em meio a uma nuvem de fumaça possui um tom meio surrealista, já que foi inspirados no clássico japonês Conto da Lua Vaga, de 1953.

    Outro ponto positivo é que, em meio a cenas de brutalidade crua, Scorsese oferece um alívio cômico nas figuras do Inquisidor e de Kichijiro, apresentado como uma espécie de judas oriental.

    Silêncio não é o tipo de filme que costumamos associar com Martin Scorsese e vemos que nesse sentido o diretor se esforça para sair da zona de conforto. Mas, infelizmente, a narrativa prepara o terreno para uma virada espetacular que nunca chega, deixando o espectador frustrado.