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    SNIPER AMERICANO

    Retrato raso transforma guerra em espetáculo
    Por Daniel Reininger
    13/02/2015

    Chris Kyle é considerado um dos atiradores de elite mais mortais da história, com 160 mortes confirmadas. Seu livro de memórias, Sniper Americano, detalhou os quatro tours como SEAL na Guerra do Iraque, além das dificuldades em se adaptar à paz ao retornar à sua casa. Com momentos de heroísmo, muitas deles, possivelmente, exagerados, o filme mostra como Kyle se tornou um mito, sobreviveu a guerra e tentou ajudar outros veteranos. Embora o longa tente discutir o conflito e o seu impacto sobre os soldados, nunca se aprofunda como deveria e, como consequência, o tom patriótico atrapalha a produção.

    Esse americanismo exagerado e o fato de Kyle ser mostrado como grande herói fez muitas pessoas associarem o filme com uma propaganda pró-guerra, ainda mais pela posição política do diretor Clint Eastwood, conservador e republicano ferrenho. Na verdade, o longa não parece saber bem se quer apenas exaltar um herói americano ou discutir questões mais sérias sobre a invasão ao Iraque e isso é sinal de problemas de direção.

    Os elementos para uma discussão e críticas se fazem presentes, porém estão escondidos sob escombros de grandes explosões e pelo destaque exacerbado dos atos de heroísmo do exército, situações que ficam bem na telona e fazem o público comum norte-americano pirar. Não é a toa que o longa é sucesso de bilheteria por lá.

    De fato, as cenas de combate são interessantes e o roteiro bem amarrado, mas o filme funciona melhor quando Clint Eastwood acompanha de perto os conflitos internos do protagonista. A sequência inicial, na qual Kyle decide ou não se deve derrubar um menino iraquiano é pesada, intensa e traz todo o horror da guerra de forma sufocante em apenas alguns minutos.

    O roteiro ainda tenta criar outras situações fascinantes – como quando um veterano reconhece Kyle em uma oficina de automóveis no Texas e o atirador mal consegue olhar nos olhos do homem, mas são momentos raros e nem sempre capazes de oferecer insight necessário sobre a situação mental dos indivíduos. Pela forma como o longa é narrado, o desenvolvimento psicológico fica sem espaço e esses momentos se tornam simples passagens de ligação, sem a importância devida.

    Para apimentar as coisas, o roteirista Jason Hall cria rivalidade com um sniper inimigo chamado Mustafa, numa tentativa de criar duelo entre dois grandes homens, algo comum em faroestes. Essa rixa ajuda a explicar muitas das atitudes do protagonista, o qual fica obcecado em salvar seus companheiros da mira certeira de Mustafa, o qual poderia ter sido melhor desenvolvido na trama. Entretanto, essa parece apenas uma forma rasa de Kyle lidar com o estresse pós-traumático e todos os seus problemas parecem se resumir a existência desse rival, explicação simplória para o estado mental do americano.

    Bradley Cooper tenta fazer sua parte, mas nem sempre consegue dar conta. Ele está parecido com o personagem: musculoso, barbudo e com sotaque do Texas. Dá para ver que o ator se esforça para convencer como cowboy que se tornou soldado de elite dos SEAL e, como sniper, procura manter olhar sempre atento, mesmo fora da zona de guerra. Infelizmente, ele não consegue render tão bem nas cenas em família, afinal não encontra o tom e colabora para a falta de peso emocional da produção.

    E apesar da bela fotografia e ótimos efeitos sonoros, a falta de atenção aos detalhes atrapalha o filme também na área técnica. É incrível como um bebê de plástico em uma cena dramática, por exemplo, pode acabar com o clima de forma tão intensa a ponto de se ouvir risadas no cinema - mesmo em uma sessão exclusiva para imprensa. Além disso, o fato dos Iraquianos serem tratados como "malignos" o tempo todo também não ajuda a credibilidade da produção.

    Não há dúvidas de que a história de Kyle é interessante, mas Eastwood poderia ter tido mais cuidado ao tratar de um tema tão polêmico ou mais coragem na hora de aprofundar questões complexas e psicológicas. Essas falhas afetam não apenas a qualidade da produção, mas também a nossa percepção sobre a obra, que é boa, mas poderia ser muito melhor.