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    SOLTEIROS COM FILHOS

    Comédia flerta com alternativas ao lugar-comum e depois repousa confortavelmente num conservadorismo quase paroquial<br />
    Por Roberto Guerra
    28/05/2012

    Talvez não haja gênero no qual o conservadorismo americano se faça notar com mais força do que nos romances ou comédias românticas. Muito semelhante a nossas novelas, boa parte dos filmes parece querer “pensar a dinâmica dos relacionamentos” para o espectador comum. Conclui por ele em vez de lançar iscas intelectuais para que tire suas próprias conclusões. Essas produções chegam às telas, muitas vezes, revestidas em verniz modernizante e atual. Parecem descoladas, vanguardistas, mas no fundo só servem para reforçar os mesmos valores conservadores de sempre.

    Solteiros com Filhos não foge à regra, apesar de parecer subverter a ordem em alguns momentos. Flerta com alternativas ao lugar-comum para depois repousar confortavelmente no berço de um conservadorismo quase paroquial. Seus protagonistas, Jason e Julie, refletem em seus diálogos, suas liberalidades sexuais e decisões o homem e a mulher do século 21. Conhecem-se desde os tempos de faculdade e têm intimidade de casal, mas se relacionam apenas como melhores amigos e confidentes. São tão ligados um ao outro que compartilham bate-papos de fim de noite por telefone enquanto seus respectivos “ficantes” dormem ao lado.

    Observando a vida conjugal de dois casais amigos com filhos, concluem que não querem isso para eles. Na comédia, a vida de casal aliada à responsabilidade de criar filhos parece um fardo pesado demais, uma espécie de atestado de óbito do amor, da paixão que antes moveu esses homens e mulheres a se relacionarem. Neste ponto a diretora estreante Jennifer Westfeldt, que também interpreta Julie, exagera nas tintas. Filhos são mostrados à audiência como meras máquinas irritantes fazedoras de cocô e xixi e capazes de anular a vida sexual do mais fogoso dos amantes. As crianças aqui são ritos de passagem acessórios, não personagens com suas individualidades.

    Os descolados Jason e Julie decidem então fazer um experimento social. Como ainda não encontraram os grandes amores de suas vidas, resolvem ter um filho juntos sem qualquer tipo de comprometimento conjugal, evitando assim o desgaste amoroso que enxergam nos relacionamentos dos amigos. O bebê vem e o plano dos dois começa a dar mais do que certo, o que frustra as expectativas de seus colegas que não apostavam no sucesso da empreitada. Entram em cena tempos depois os novos interesses amorosos de ambos, a jovem bailarina Mary Jane (Megan Fox, fraca como de costume), por quem Jason fica encantado, e o empreiteiro divorciado Kurt (Edward Burns), um partidão que reúne tudo o que Julie espera de um parceiro.

    Há, no desenrolar do filme, um fio de esperança de que a condução da trama fuja do convencional, mas no seu terço final Solteiros com Filhos promove uma guinada e leva ao espectador a presenciar mais do mesmo. A velha e conhecida moral americana assoma e retrata a família nuclear tradicional como reduto da realização plena do ser humano. Uma garantia de felicidade no fim do caminho independente do quanto se possa sofrer no trajeto.

    Cada geração costuma acreditar ter uma receita sem precedentes para o equilíbrio entre casamento e criação de filhos. Na segunda década do século 21, Solteiros com Filhos não traz reflexões e deixa a mensagem que não há nada de novo a dizer sobre o assunto.