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    SONHOS ROUBADOS

    Boa ambientação, mas filme de Sandra Werneck se esquiva de propor ou fazer afirmações<br />
    Por Heitor Augusto
    23/04/2010

    Uma boa ambientação garante a Sonhos Roubados, o novo filme de Sandra Werneck, a necessária sensação de veracidade ao construir um relato cinematográfico em forma de crônica. Ali está um Rio de Janeiro distante dos cartões postais da zona sul, com câmeras voltadas à favela – apesar de que os dois mundos conversam, no filme, a partir dos desejos pequenos burgueses.

    O novo filme de Sandra Werneck (Meninas e Cazuza – O Tempo Não Pára) é feliz na escolha das roupas, no uso das cores, os cabelos, nos pequenos gestos, no timbre de voz das atrizes, no tom documental do que está por trás das protagonistas. Mas por que Sonhos Roubados não é retumbante? Penso em duas razões.

    Primeiro: porque não questiona, oferece, propõe, desmente ou afirma. Apenas “mostra”. Mais um filme crente de que intervir seria desrespeitar os dramas das protagonistas Jessica (Nanda Costa), Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz) – ficcionais, mas com histórias parecidas com a de muitas outras que dividem a mesma pobreza.

    Acompanhamos Jessica tentando criar a filha pequena, Sabrina esperando pelo príncipe encantado enquanto cai no mundo real e Daiane lutando para que o pai lhe dê o amor devido. E? E nada. Mesmo com a amizade entre o trio – esteio da sobrevivência de cada uma –, suas histórias não são particularizadas. São meninas que sobrevivem quando o mundo diz “não”. E só. Óbvio que, em potencial, isso pode significar muito, mas não no caso desse filme.

    Segundo: Sonhos Roubados tropeça em muitas lombadas, cenas que um personagem vira caricato ou uma cena tem uma pompa desnecessária. Um exemplo do primeiro caso: Wesley (Guilherme Duarte), o quase príncipe que Sabrina esperava, é o bandido do pedaço. Depois de sumir, aparece de surpresa na casa que montou para a namorada. Desenrola-se ali uma cena extremamente canastrona, com Wesley como um bandidão mequetrefe.

    O cara entra na casa, põe a arma na mesa e, segundos depois, banca o machão com a profética “sou eu que mando nessa p...”. Epa! Inspiração no Nuno Leal Maia dos anos 80 ou no James Gandolfini de Família Soprano? Que representação canastrona do bandido!

    Ou senão: as meninas vão ao cemitério e, com uma decisão digna de gente grande, transformam um ato sentimental em solene e, de quebra, com os diálogos, fazem uma explicação didática ao espectador.

    Nesse caminho, Sonhos Roubados busca a amizade das protagonistas, os pequenos gestos que representem os seus sonhos, a resistência para viver em um mundo hostil a pobres.

    E? À exceção da boa atuação de Nanda Costa (méritos que devem ser divididos com a direção de Sandra Werneck), Sonhos Roubados retrata, mas não afirma. Retrato eficiente, diga-se, mas nunca incisivo.