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    TIMBUKTU

    Um retrato perturbador da jihad e seu fundamentalismo
    Por Gustavo Assumpção
    22/01/2015

    Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Timbuktu chega aos cinemas justamente no momento em que a fé islâmica está sob fogo cerrado. O impacto do ataque ao jornal francês Charlie Hebdo no começo de janeiro parece ter condicionado, mais uma vez, a opinião pública ao ódio aos grupos extremistas. Mas, como defendê-los diante de tamanha barbárie?

    É um pouco desse espírito que está no filme do mauritano Abderrahmane Sissako. Coprodução entre França e Mauritânia e vencedor do Prêmio do Júri Ecumênico no último Festival de Cannes, o longa começou a ser desenvolvido após o apedrejamento público de um casal de namorados em Mali, no ano de 2012. Apesar de ter nascido na Mauritânia, Sissako foi criado em Mali, país em que o fundamentalismo radical de seguidores de uma vertente do islã tem se intensificado.

    O filme constrói sua narrativa retratando a vida cotidiana de vários habitantes de uma cidade no interior do país. O personagem principal é Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino), pastor que vive tranquilo ao lado da família. Após um confronto com um pescador motivado pela morte de uma vaca - em uma cena tão bela quanto chocante - Kidane mata seu opositor, ficando à mercê do julgamento dos extremistas. Afinal, qual será sua punição por cometer um crime tão imperdoável?

    Há beleza no retrato de Sissako, que, por vezes, se vale dos cenários áridos e hostis para construir sua mensagem. Sua câmera alterna detalhes e planos abertos para mostrar o cotidiano dessas pessoas, além de sua fraqueza diante da repressão e da violência, sempre retratada de forma chocante, brutal e repentina. Há um retrato contundente da jihad e sua moral duvidosa, de suas regras impraticáveis e das obrigações que impõe às mulheres.

    Mas o filme parece pouco disposto a entender a complexidade do movimento jihadista. Sua visão rasa do extremismo parece condicioná-lo para exercer um papel propagandista.

    Timbuktu desperta um grande conflito em quem o assiste: seu tom documental parece disposto a mostrá-lo como verdade absoluta. Mas, será que o não entendimento das ideias radicais está relacionado ao nosso modo ocidental de compreender o outro?

    Talvez seja possível entender o mundo sob outra lógica, mas a repressão gratuita e a barbárie serão para sempre incompreensíveis. Na construção da não naturalização da violência todo panfleto tem seu valor.