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    TRAMA FANTASMA

    Por Daniel Reininger
    21/02/2018

    Paul Thomas Anderson parece obcecado por histórias de pessoas que lutam para se adequar à realidade à sua volta. Ele adora ver como esses personagens cruzam fronteiras ou são esmagados pelos seus limites. Em Trama Fantasma, ele mais uma vez trata sobre a luta contra uma situação opressora, que faz personagens terem atitudes inacreditáveis. Dessa vez, com foco em um estilista neurótico chamado Reynolds Woodcock e uma modelo chamada Alma.

    Woodcock, interpretado por Daniel Day-lewis, é um designer de moda de renome mundial que vive em Londres nos anos 1950. Extremamente criativo, ele leva uma vida rigidamente estruturada, sem ruídos altos, sem confrontos até depois do café da manhã, com a programação impecável. É um gênio e todos parecem acreditar que vale a pena aguentar todas essas regras para ver e possuir suas obras inspiradoras.

    Impossível não lembrar que Paul Thomas Anderson é um diretor detalhista e isso fica claro pelo posicionamento de câmera, escolhas musicais, cuidado com som, luz e escolha do elenco. Nada, em seus filmes, parece ser deixado ao acaso, um nível de cuidado que vemos exatamente no protagonista dessa obra. Talvez por isso Woodcock pareça tão realista em seus absurdos.

    Entretanto, Trama Fantasma é também a história de Alma, interpretada por Vicky Krieps, uma jovem selecionada pelo designer para ser sua mais nova musa. Ela é arrancada do hotel onde trabalha e passa a viver com o artista. Ela inspira seus projetos e imediatamente se torna uma parte deles. Ela passa a amar Reynolds por seu carinho e se torna uma fiel seguidora, encantada com sua genialidade, mas logo acaba perdendo a sanidade ao viver em um ambiente tão controlado.

    Esse filme traz elementos já vistos na obra do diretor, como o impacto da musa sobre o artista mais velho, além de obsessões, mas pelo menos não é, de forma alguma, previsível. Basicamente, o longa mostra como Alma vai ao limite, Reynolds vai ao limite e ambos precisam aprender a lidar com a questão do controle e sobre como cedem controle. É uma mistura de abuso, tensão, amor e esperança capaz de deixar qualquer um confuso ao sair do cinema.

    Em seu último papel após o anúncio da aposentadoria, Daniel Day-Lewis entrega outra performance incrível. É interessante ver como Woodcock escolhe revelar aos outros apenas parte de sua personalidade, deixando seus vestidos como única forma real de expressão, nos quais esconde pequenas frases costuradas no forro de cada uma de suas criações.

    Vicky Krieps está igualmente fantástica como Alma e sua tentativa de desvendar aquele personagem curioso e bizarro se torna a força motora do filme. A forma como ela alterna entre admiração, raiva, apatia e amor é memorável. Krieps e Day-Lewis interpretam opostos, ela é um livro aberto e espontânea, ele é totalmente reservado, mas a forma como se completam e fazem o relacionamento funcionar é desconcertante.

    Belo e surpreendente, Trama Fantasma é fantástico, apesar de difícil. Sua trama incomum gera muitas reflexões e incomoda quase constantemente, afinal apresenta um dos romances mais bizarros que você vai ver no cinema. E se você sair do filme sem saber ao certo se gostou, não se desespere, essa é a intenção, mas conforme você analisa cada detalhe, perceberá que tudo fica ainda melhor.