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    TRAPAÇA

    Filme de personagens cativantes em suas imperfeições
    Por Roberto Guerra
    06/02/2014

    Este é um filme de personagens fortes, intensos e impulsivos. O diretor e co-roteirista David O. Russell (O Lado Bom da Vida) estava ciente disso e da necessidade consequente de ter um elenco poderoso para dar vida a esses tipos. Fica cristalino ao se ver Trapaça que este era o segredo de seu êxito. E o longa é o que é, bem-sucedido, por reunir uma trupe de protagonistas que o enche de vida e torna assisti-lo uma experiência energética e prazerosa.

    Eles são trambiqueiros que vão direto ao ponto, sem floreios filosóficos pautando suas ações. Irving (Christian Bale) faz o estilo suprassumo do oportunismo. É proprietário de uma rede de lavanderias de fachada e aplica todo o tipo de golpe que possa lhe render uma grana a mais. Flashbacks o mostram ainda menino atirando tijolos em vidraças do bairro para "dar uma força" ao negócio do pai, um vidraceiro.

    Ele se apaixona por Sydney (Amy Adams dando novo sentido ao termo sex appeal). Em pouco tempo o casal está aplicando golpes em incautos desesperados por um empréstimo. Tudo vai muito bem até que são flagrados pelo ambicioso e inconsequente agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), que resolve usar o talento da dupla de estelionatários para levar à cadeia políticos corruptos e gângsteres.

    Trapaça é um filme muito interessante por não ser perfeito. O roteiro não explora a dicotomia mocinhos- vilões, o que costuma facilitar as coisas. Todos os personagens têm nossa simpatia e desprezo em proporções equivalentes. Ninguém é inocente ou paladino da moral e justiça. Todos se merecem em certo grau e todos ganham um pouco de nossa indulgência.

    Seria muito fácil (e óbvio), por exemplo, transformar o prefeito Carmine Polito (Personagem de Jeremy Renner) num canalha inescrupuloso a ser punido pela trama. Mas ele é mostrado como alguém de certa forma ingênuo, cujo o propósito é ajudar sua comunidade. Sim, ele está ciente que está fazendo algo ilegal, mas segue adiante pelo que considera um propósito edificante – os fins que justificariam os meios.

    Esta imperfeição bem-vinda de Trapaça faz com que seus personagens pareçam reais, homens e mulheres no limite, desesperados, que podem reagir de forma imprevista a qualquer momento. A trama envolvendo corrupção torna-se menor diante desse estudo de tipos envolventes. A cena de abertura com Irving sozinho realizando uma espécie de ritual complexo para esconder a calvície diz muito sobre ele. E estes detalhes, muitos deles hilários, constroem todas essas cativantes figuras.

    Trapaça é um filme imperfeito sobre pessoas imperfeitas fazendo coisas imperfeitas. Há algo de caótico em seu desenrolar e esta desordem choca-se frontalmente com o arranjo ordenado e impecável das atuações, direção de arte, trilha sonora e figurino. Há muita perfeição permeando as irregularidades desse saboroso filme.